*Da Redação Dia a Dia Notícia
O uso excessivo de inteligência artificial (IA) pode reduzir o exercício de capacidades cognitivas como reflexão, aprendizagem e criatividade, segundo pesquisa desenvolvida na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). O estudo alerta para o risco de profissionais delegarem cada vez mais tarefas intelectuais às ferramentas de IA, em um processo que pode contribuir para o chamado “brain fry”, termo usado para descrever uma espécie de esgotamento ou enfraquecimento cognitivo associado à terceirização contínua do pensamento.
A pesquisa foi desenvolvida pelo doutor em engenharia organizacional Rodrigo de Barros, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, e parte da ideia de que criatividade e inovação dependem do exercício contínuo de habilidades como aprendizagem, reflexão e capacidade de estabelecer conexões entre diferentes conhecimentos.
Processo do estudo
Para construir o modelo proposto no estudo, foram analisados inicialmente 1.004 artigos científicos publicados internacionalmente. A partir de critérios definidos pelos pesquisadores, 101 trabalhos considerados de maior impacto foram selecionados para compor o chamado estado da arte da pesquisa.
Segundo Barros, o problema não está no uso da IA em si, mas na possibilidade de a tecnologia substituir de forma sistemática atividades que exigem raciocínio e elaboração intelectual. A lógica é semelhante ao que ocorreu com outras tecnologias: calculadoras reduziram a necessidade de realizar operações mentalmente, enquanto o GPS diminuiu a necessidade de desenvolver determinadas habilidades de orientação.
No caso da IA generativa, porém, a mudança envolve tarefas diretamente ligadas ao pensamento, como elaboração de argumentos, análise de informações, produção de ideias e resolução de problemas.
Por isso, o pesquisador defende que o uso dessas ferramentas seja acompanhado pela manutenção de atividades que estimulem o raciocínio humano.
Resultados da pesquisa
A pesquisa também resultou na criação de um protótipo do ‘Sistema Web MACI’, desenvolvido para realizar diagnósticos automatizados e indicar possíveis intervenções para profissionais de recursos humanos e lideranças. Quando o sistema identifica um componente com avaliação abaixo de 3,5, ele cruza os dados com a literatura científica e apresenta recomendações direcionadas.
Para Barros, o desafio das empresas está em utilizar a inteligência artificial como instrumento de apoio, e não como substituta do pensamento. Entre as estratégias apontadas estão a realização de debates, resolução colaborativa de problemas, aprendizagem contínua e estímulo à experimentação.
O pesquisador também destaca que criatividade não deve ser tratada apenas como um talento individual, mas como uma capacidade que pode ser desenvolvida ao longo do tempo. Nesse processo, repertório, curiosidade, memória, aprendizagem e disposição para lidar com problemas complexos têm papel central.
Com a expansão da IA em áreas como marketing, direito, estratégias comerciais e gestão, o debate sobre os impactos da tecnologia no desenvolvimento das habilidades profissionais tende a ganhar espaço. A proposta apresentada no estudo é encontrar um equilíbrio entre o ganho de eficiência proporcionado pelas ferramentas e a preservação das capacidades cognitivas necessárias para que trabalhadores continuem analisando, questionando e criando por conta própria.
