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Vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida pede demissão do cargo na Casa Civil e Wilson Lima acata

Carlos Almeida foi o primeiro secretário de Estado da Saúde escolhido para a pasta, no governo Wilson Lima (PSC)
Foto: Reprodução

O vice-governador do Amazonas, Carlos Almeida Filho (PTB), pediu exoneração da Casa Civil, por meio de uma carta enviada ao governador Wilson Lima (PSC),  nesta segunda-feira, dia 18, após um ano e um mês de gestão. A decisão vem em um momento delicado para a área da saúde do Amazonas no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus.

“Não estou com a mão no timão, e já exauri minhas forças remando forte no sentido oposto de muitos nessa Galé”, diz a carta do vice-governador

Carlos Almeida permanece no cargo de vice-governador. O governador Wilson ainda não se manifestou sobre o pedido de demissão de Carlos Almeida, mas acatou o pedido, conforme nota enviada pela Secom, na tarde desta segunda.

Wilson Lima e Carlos Almeida foram eleitos em 2018. Carlos era filiado ao PRTB. No início deste ano, mudou de partido e assumiu o comando do PTB no Estado. Ao assumir o governo, em janeiro de 2019, Wilson Lima nomeou o vice-secretário de Saúde. Foi a primeira pasta a ser escolhida por Wilson. Em março daquele mesmo ano, Carlos saiu da Secretaria de Saúde para assumir a Casa Civil.

Na carta, Carlos Almeida ataca adversários de dentro da administração, que seriam os responsáveis por sua decisão. O Dia a Dia apurou que Carlos pediu exoneração por não concordar com ações do governador Wilson Lima. Na carta, ele afirmou que “na política há personagens perigosos, às vezes, até mesmo dentro do nosso próprio barco.” Ele diz ainda que seu papel, enquanto homem público, foi sempre de “blindar o Amazonas contra esses espectros”, e alertar o governador sempre, dos caminhos a serem seguidos, para não tombar nos rochedos.

Carlos Almeida Filho é formado em direito pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Ingressou na Defensoria Pública do Estado (DPE-AM) em 2005. Em 2009, assumiu a então criada 1ª Defensoria Pública Especializada em Atendimento de Interesses Coletivos. Como defensor público, atuou em aproximadamente 1.500 causas, ligadas sobretudo a direitos básicos, direitos do consumidor, com destaque para a problemática das ocupações irregulares de terras e moradia.

Nota do Governo

O Governo do Amazonas informou, em nota, que o vice-governador deixa, a pedido, a chefia da Casa Civil. Eles informaram que a pasta será assumida, interinamente, Lourenço Braga Júnior, então chefe da consultoria técnica legislativa do órgão.

“O vice-governador Carlos Almeida informou que se dedicará a projetos estruturantes no governo, alguns deles iniciados ainda no seu trabalho frente à Casa Civil, como programas na área de moradia popular. Ele agradeceu à equipe que o auxiliou na coordenação e planejamento de ações desenvolvidas na Casa Civil e afirmou que o Governo do Amazonas segue com muito trabalho pela frente”, diz a nota.

Nomes cotados

O advogado Alberto Simonetti Neto é o mais cotado pra assumir a Casa Civil no lugar do vice-governador Carlos Alberto Filho. O nome de Beto Simonetti, como é mais conhecido, foi sugerido por um grupo de deputados. Simonetti já vem atuando informalmente na defesa do impeachment do governador. Outro nome citado na sede do Governo para o cargo é o do ex-secretário de Cultura, Robério Braga, que já atua como conselheiro do governador.

A carta de exoneração apresentada pelo vice-governador na íntegra:

Senhor Governador,

Nesta última quinta-feira voltei para casa mais cedo que o usual, alquebrado e desiludido. A Psiquê diz que em momentos de extrema tensão o passar do tempo é mais arrastado e o aguçamento dos sentidos permite saborear com muito mais intensidade cada sentimento. Foi assim que pude ver, na inocência dos meus dois filhos bebês, a angústia que me encontrava, pois meus ideais de pai e de homem público se confundem. Apertou meu coração ver o sorriso do meu filho e não corresponder por estar dragado por preocupações. Que futuro eu construiria para eles? E me tomei taciturno por longos dias. Tal qual nos insights em momentos de trauma, todo meu histórico me passou pelos olhos, contudo, sob a lente cinza dos momentos atuais. Que futuro construiria para mim? E me é obrigado a pensar assim.

Tenho perfeita consciência da minha personalidade, aguerrida sim, porém sempre conciliadora – algo que é atestado por inúmeros que comigo conviveram ao longo dos anos -, o que decorre de toda uma vida de desafios. Permito-me um breve histórico.

Sou filho de engenheiros, de uma mãe aguerrida, hoje advogada, e de um pai conhecidamente duro e probo, ambos amorosos e ciosos do maior dever que tiveram com seus três filhos: a incrustação de educação e valores. O exemplo sempre me era cobrado, por ser o primogênito. Portanto, numa vida sem luxos e de grandes dificuldades, meus estudos, quase que integrais, em escolas públicas deveriam refletir a mesma perseverança de meu pai: o penúltimo filho, numa família de nove irmãos, que se educou só e sustentou uma família inteira em tempos difíceis. Como a ele, nada me veio fácil, somente através de muito estudo galguei espaço nas duas faculdades que cursei simultaneamente. Somente através de muito trabalho, pude ajudar no sustento de minha família. Somente com muito esforço pude lograr aprovação em certames públicos, dentre os quais o da minha amada Defensoria.

Decerto as histórias maravilhosas que meu pai contava todos os dias tenham forjado minha visão mais idealista do mundo, um desejo constante de mudar o que encontrava de errado. As citações de Sidarta Gautama, Carlos Castañeda, Benítez, Frank Herbert, dentre muitos ecoam em meus pensamentos como sinalização para se evitar os mundos distópicos de Orwel ou Huxley. Daí minha paixão pelo exercício de meu ofício enquanto Defensor, o que se vê claro nas escolhas profissionais que me levaram a tantos e públicos embates na busca incessante pelo direito das populações. Contudo, ao perceber que os mais básicos direitos fundamentais exigiam implantação de políticas públicas mais profundas, me creditei ao processo eleitoral, sustentando, dentre várias, a pauta da Moradia, uma das mais graves omissões no Estado do Amazonas.

Após um processo eleitoral que nos foi muito duro, chegamos a um Estado em frangalhos, que exigia um sério processo de reconstrução. E foi justamente o que me propus, ao seu lado, a fazer. Com toda a dedicação e espírito público, empreguei toda a energia que pude na pasta da Saúde, contudo as convulsões internas de março de 2019 fizeram com que o Senhor me chamasse à Casa Civil, onde o trabalho de reconstrução deveria ser feito, aliado à articulação política. Ao que me dediquei, com perseverança e lealdade durante todo o ano de 2019, o que permitiu a construção de um ambiente de austeridade, a autorizar para este ano de 2020, o início de ações estruturantes, como exemplo, Moradia, no caso Monte Horebe.

Contudo, não se singra por águas tormentosas sem que se tenha de enfrentar Cila e Caribdes. Em Política não é diferente, e personagens tão ou mais perigosos se encontram em todos os lugares, às vezes, até mesmo dentro nosso próprio barco. Meu papel, enquanto homem público, preocupado em fixar mais um tijolo na construção de um Amazonas melhor, foi sempre de blindar meu Estado contra esses Espectros, alertando-lhe, sempre, dos caminhos a serem seguidos, para não tombar nos rochedos.

Todavia, a despeito de todo meu esforço, não estou com a mão no timão, e já exauri minhas forças remando forte no sentido oposto de muitos nessa Galé. Portanto, Senhor Governador, agradecendo-lhe toda a confiança que me foi depositada, afirmo-lhe não seguir pelos atuais rumos, ao passo que lhe comunico minha exoneração da Casa Civil, retirando-me para o ofício inerente à vice governadoria.

Manaus, 18 de maio de 2020.

Carlos Alberto Souza de Almeida Filho

 

 

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