*Maria Clara Pereira – Da Redação Dia a Dia Notícia
As projeções climáticas para o segundo semestre de 2026 acendem um alerta para o Amazonas. Nessa quinta-feira, 23, especialistas ouvidos pelo Dia a Dia Notícia afirmaram que o fenômeno El Niño aumenta o risco de uma estiagem significativa no estado, embora ainda não seja possível confirmar que ela terá a mesma intensidade das secas registradas em 2023 e 2024.

O fenômeno El Niño já está estabelecido e deve se fortalecer até o fim do ano, aumentando o risco de uma estiagem significativa, embora especialistas ressaltam que ainda não é possível afirmar que o estado enfrentará uma seca tão severa quanto a registrada em 2023 e 2024.
Em entrevista ao Dia a Dia Notícia, a meteorologista Andrea Ramos, que atua como consultora na área, o cenário atual exige acompanhamento constante, mas ainda depende da evolução das chuvas nos próximos meses.
“O risco deve ser tratado como elevado, porém condicionado ao comportamento das precipitações durante o segundo semestre. Mesmo um El Niño muito forte não produz necessariamente impactos idênticos em todos os episódios”, explica.
Ela destaca que o boletim da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) aponta 97% de probabilidade de o El Niño persistir até o início de 2027 e 81% de chance de atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro. No entanto, esses percentuais se referem à permanência do fenômeno e não representam, automaticamente, a ocorrência de uma seca extrema na Amazônia.
Como o El Niño afeta a Amazônia

O fenômeno tem origem no aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica, reduzindo a formação de nuvens e a convergência de umidade sobre parte da Amazônia.
Como consequência, há diminuição das chuvas, aumento das temperaturas, maior evapotranspiração e prolongamento da estação seca, principalmente nas regiões norte e leste da Amazônia.
Além do Pacífico, Andrea Ramos ressalta que a intensidade da estiagem também pode ser influenciada pela temperatura do Atlântico Tropical Norte, especialmente nas áreas oeste e sudoeste da região amazônica.
Cenário atual é melhor que o de 2024
Apesar do alerta, a especialista destaca que o ciclo hidrológico de 2026 começou em condições mais favoráveis.
A cheia ocorreu dentro da normalidade e, no início de julho, a maior parte das estações hidrológicas da bacia amazônica registrava níveis considerados normais para o período. Em Manaus, por exemplo, o rio Negro iniciou a vazante ainda acima da média histórica.
Essa condição inicial oferece uma margem maior de segurança, mas não elimina o risco de uma descida acelerada dos rios caso a redução das chuvas persista durante os próximos meses.
Amazonas depende dos rios para funcionar

Também em entrevista ao Dia a Dia Notícia, o geólogo Daniel Nava, gerente de Recursos Hídricos do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM),
uma estiagem prolongada afeta muito mais do que os níveis dos rios.
Segundo ele, os rios amazônicos representam a principal infraestrutura logística da região, sendo responsáveis pelo transporte de pessoas, alimentos, medicamentos, combustíveis e mercadorias.
“Quando os rios baixam, comunidades ficam isoladas, aumentam as distâncias até as embarcações, o abastecimento é comprometido e até a geração de energia pode ser afetada em localidades que dependem do transporte de combustível para usinas termelétricas”, afirma.
Nava lembra que, entre 2023 e 2025, praticamente todos os 62 municípios amazonenses decretaram situação de emergência em razão das vazantes extremas, evidenciando uma recorrência maior desses eventos nos últimos anos.

Calor, queimadas e qualidade do ar
Outro efeito preocupante é o aumento da vulnerabilidade da floresta aos incêndios.
Com menos chuva, temperaturas mais elevadas e vegetação mais seca, cresce o risco tanto de queimadas provocadas pelo manejo irregular do fogo quanto da propagação de incêndios florestais.
Além dos danos ambientais, a fumaça prejudica a qualidade do ar e contribui para o aumento de problemas respiratórios, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
O prognóstico climático para agosto indica predominância de temperaturas acima da média em praticamente toda a Amazônia, incluindo o Amazonas, principalmente nas regiões central, sul e leste do estado. Ao mesmo tempo, a tendência é de chuvas abaixo da média em grande parte da região, cenário que favorece o ressecamento da vegetação e acelera a vazante dos rios.
Mudanças climáticas ampliam os extremos

Durante a entrevista concedida ao Dia a Dia Notícia, Andrea Ramos destacou que, a sucessão de secas, ondas de calor, incêndios e cheias extremas resulta da combinação entre fenômenos naturais, como El Niño, La Niña e alterações na temperatura do Atlântico Tropical, com os efeitos das mudanças climáticas.
Ela explica que nem todo evento extremo pode ser atribuído diretamente ao aquecimento global, mas o aumento gradual da temperatura média do planeta cria condições que intensificam seus impactos.
“O aquecimento deixa a atmosfera e os ecossistemas em uma condição de base mais quente, favorecendo maior evaporação, perda de umidade do solo e períodos mais prolongados de calor e estiagem. Assim, quando ocorre um El Niño, seus efeitos tendem a ser potencializados”, afirma.
Preparação avançou, mas desafios permanecem
Questionado pelo Dia a Dia Notícia sobre a preparação do Amazonas para uma possível estiagem severa, Daniel Nava afirmou que o Amazonas está mais preparado do que em anos anteriores para enfrentar uma eventual estiagem severa.
Segundo ele, após as crises recentes, foi estruturado um grupo permanente de trabalho coordenado pela Defesa Civil, reunindo órgãos estaduais, federais e municipais para monitoramento e resposta aos eventos extremos.
Entre as ações já adotadas estão o fortalecimento das Defesas Civis municipais, operações de dragagem para manter a navegabilidade em trechos estratégicos dos rios, ampliação das ações de combate às queimadas e melhoria dos canais de comunicação com as comunidades ribeirinhas.
Apesar dos avanços, Nava defende que as mudanças climáticas passem a integrar definitivamente o planejamento estratégico da Amazônia, com recursos permanentes para prevenção e resposta.
Ele também faz um alerta para os próximos anos.
“Talvez 2026 não apresente uma vazante tão extrema porque os rios tiveram boa recuperação durante a cheia. Mas, se o El Niño permanecer e as chuvas não forem suficientes para recuperar os níveis dos rios no fim do ano, 2027 pode começar em uma situação muito mais preocupante”, conclui.
