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O Culto de Mitra: Conexões entre o passado e o presente

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Mitra e o Touro/ Mármore - British Museum

Sobrevivências de um legado da Antiguidade na Cultura do Amazonas

Data do século XIV a.C. a primeira referência a Mitra. Solar, diurno, todo o sacrifício realizado em seu nome estará aliado a uma ideia de “bem”, de luz, em contraposição às forças das trevas, da morte e do “mal”. Embora relegado a segundo plano na reforma religiosa de Zaratustra, efetuada por volta de 600 a.C, o culto mitraico continuará mantendo papel preponderante no mundo persa. De forma sucinta podemos descrever os elementos presentes no mito relacionado com esta divindade da seguinte forma:

  • Nasce de uma rocha situada numa caverna;
  • Será Mitra quem executará o Touro, por ordem do sol, perpetrando um sacrifício criador.

“Mitra agarra o animal pelas ventas e espeta-lhe a faca no pescoço. Do corpo do animal derivarão todas as plantas e ervas úteis ao homem. Da coluna vertebral germina o trigo, dele escorrem o leite e a manteiga, do seu sangue nascerá o vinho que dissipa a tristeza. Ahriman, o deus das trevas, envia uma legião de demônios para atormentar o moribundo. Vêm a formiga, as serpentes venenosas e o escorpião que atacam os órgãos genitais. Mas destes sai um sêmen divino que dá origem a todos os animais da terra. Mesmo próximo do fim, o touro era invencível e sob proteção do cão, de Mitra e da Lua, a sua alma ganha para sempre os céus.”1

Será entre os séculos VI a IV a.C. que o culto de Mitra iraniano atingirá o auge. Cerca de  duzentos anos  depois,  o  Mitraísmo  será  assumido pelas legiões romanas que propagarão o culto aos confins do império.

Durante as guerras púnicas o culto mitraico foi introduzido formalmente em Roma. Isso terá acontecido por volta de 204 a.C. No apogeu do poder romano, o culto persa de Mitra, tornou-se a principal religião do império, sincretizada com o culto romano do Sol Invictus. As guerras gaulesas de César – que começaram em 58 a.C. -, abriram as portas da Europa para a sua expansão no continente.

O Cristianismo torna-se preponderante, após a queda de Roma, quando Bizâncio assume o papel de Nova ou Segunda Roma. Em 308 d.C. o imperador Diocleciano proclama Mitra o benfeitor do império, consolidando assim a posição do Mitraísmo desde há muito considerado culto oficial. Mas em 312, as vitórias do cristão Constantino irão prenunciar o declínio mitraico. O édito de Graciano de 382, termina oficialmente com o Mitraísmo. Os seus adeptos deixarão de celebrar a 25 de dezembro a data do nascimento de Mitra e o sumo sacerdote da religião mitraica abandonará de vez o monte Vaticano onde se situava a sua residência. O Cristianismo banirá de vez o Mitraísmo 11.

Tendo conquistado para si todo o império por volta de 324, Constantino, O Grande, começou a consolidá-lo em um único bloco espiritual. Com essa finalidade convocou, em 325, o Concílio de Nicéia. Mais de trezentos bispos compareceram, vindos de todas as províncias do domínio (CAMPBELL,2008;316).

“Sob o reinado de Constantino foi concedido ao Cristianismo o mesmo status das religiões pagãs do império. Mas, meio século mais tarde, no reinado de Teodósio, o Grande (reinou de 379 a 395), o Cristianismo foi declarado a única religião permitida. Com isso iniciava-se por decreto imperial o período que passou a ser conhecido como Idade Média.” (CAMPBELL:2008;317)

Teodósio, O Grande, morreu em 395 d.C. Exatamente quinze anos depois, os Visigodos, sob o comando de Alarico, devastaram Roma.

Resquícios de ritos sacrificiais associados ao Mitraísmo, sincretizados com o Catolicismo, iriam permanecer sob variadas formas por todo o império romano, adquirindo simbologias relacionadas com a morte, o renascimento, as recorrências cíclicas da natureza.

O processo de transferências simbólicas operadas entre o Mitraísmo e o Cristianismo dará́  origem a um tipo particular de sincretismo. Reike, demonstra-nos como se realiza esse processo.

“ (…) a fusão das religiões da tribo, com a vitória dos novos deuses se dava de três modos:
a) pelo trabalho do sincretismo, com a assimilação das divindades de uma às da outra religião;

  1. b) pelo rebaixamento dos antigos deuses às categorias de heróis, espíritos auxiliares ou servos dos novos deuses;
    c) pela degradação definitiva dos antigos deuses à classe dos anjos maus ou demônios.

No ritual aconteceu a mesma coisa. O que era uma prática natural da religião, passou a ser considerado ritual privado, esotérico, perseguido pelos adeptos da nova religião imposta. Assim surgiram as seitas ocultas que, desde a Antiguidade aos nossos dias evidenciam o trabalho do recalcamento operado pelas novas religiões que se dizem ao serviço da cultura. Por esta mesma razão nenhuma religião subsiste em estado puro. Ao lado do seu triunfo aparente, há elementos subterrâneos, supérstites, de velhas crenças e de velhos ritos. Estabelecem-se deste modo as lutas entre o legítimo culto e as práticas antigas, agora consideradas heréticas e privadas.

“Esta oposição fundamental, base das lutas religiosas, surge com mais evidência entre o Cristianismo e as velhas crenças pagãs.” 12

Dois pesquisadores portugueses corroboram a existência de processo análogo em Portugal, cujas origens nos remetem para a antiga Lusitânia, e que estenderão sua influência até o início da colonização do Brasil:

“Teófilo Braga e Leite de Vasconcelos, entre outros, mostraram as sobrevivências pagãs, no Catolicismo popular português, com velhos elementos das religiões chtonianas, avéstica e védica e do paganismo Greco-Romano. As religiões proto-históricas da Lusitânia impregnaram desta forma o Catolicismo, num trabalho de paganização popular. Ora, foi este Catolicismo popular o introduzido no Brasil e logo amalgamado às religiões naturais do ameríndio aqui encontrado.” (Ramos:1935:31)

Na bagagem cultural antropológica dessas migrações viajará o Boi. Agora, protagonizando um caráter despido de religiosidade, irá assumir diversas formas conforme a região onde se sedimentar. Numa delas, no Meio Norte brasileiro, o auto do Bumba-Meu-Boi descreverá um retrato das interlocuções culturais e antropológicas presentes na gênese do Brasil, remetendo-nos para o arquétipo de morte e renascimento.

10 TEIXEIRA, Fernando Paes Coelho: A festa e os Ritos do Touro Bravo: Contribuição para o seu estudo. Tese do Mestrado em sociologia aprofundada e realidade portuguesa. Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Orientador: prof. Dr. Moisés Espírito Santo.

11 VEYNE, Paul. Quando nosso mundo se tornou cristão: (312-394) Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

12 REIKE,Th. Der eigene und der fremdeGott.ZurPsychanalyse der religiönenEntwicklung, Imago- Bücher, n III. apud Ramos: 1935:29.

Segunda parte do texto original integrante do livro INTERFACES CONTEMPORÂNEAS ENTRE RELIGIÃO E EDUCAÇÃO NA AMAZÔNIA, Ed. Autografia, RJ 2018.

Rui Carvalho/ Arquivo pessoal

Rui Carvalho é regente titular da Amazonas Band, arranjador e compositor, doutor em Etnomusicologia pela Unicamp e diretor-geral do Festival Amazonas Jazz.

 

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