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“Minha pele é dura” – A vida de Isabel Allende em série

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Divulgação

O incrível de conhecer mais da história de uma autora que a gente gosta é descobrir o quão real e humana ela pode ser. A quantidade de erros no decorrer da vida, de passos falsos, de escolhas que parecem certas e que não são, de encontros que não têm razão de serem sustentados e de contas a pagar. O arrebatamento que um texto pode trazer para nós, leitores, pode ser só a camada leve e fina de uma vida recheada de dores, abandono e repetição.

 

“Isabel: La história íntima de la escritora Isabel Allende”,  minissérie chilena em três capítulos que estreou em junho no Amazon Prime, narra os primeiros 50 anos de vida da escritora Isabel Allende, os amores, o drama envolvendo a morte da filha Paula e todo o panorama político da época, que levou a escritora de língua espanhola mais lida no mundo a fugir do Chile depois de os militares tomarem o poder. Allende, autora de 25 livros, traduzidos em mais de 42 idiomas e que vendeu mais de 75 milhões de cópias em todo mundo, não participou da produção da minissérie, mas facilitou o acesso a vídeos e fotos que aparecem no decorrer da narrativa.

 

Acompanhamos Isabel criança: teimosa, curiosa e muito traumatizada pelo abandono do pai, a bela relação criada com o avô Tata, cuja morte abre espaço para que a autora, aos 40 anos, se arrisque a escrever ficção. É bonito enxergar como ela usa as experiências da vida na casa do avô, as descobertas infantis e os temores fantasmagóricos para criar aquele que foi o seu primeiro livro e, talvez, seu maior sucesso: A casa dos espíritos.

 

Já a Isabel moça, mãe de duas crianças, é convidada para escrever em uma revista no Chile, onde cresce como jornalista feminista, com textos ácidos e depoimentos certeiros, sempre incomodando o público mais conservador do país. Em uma relato de 1986, Isabel conta que tentou entrevistar Pablo Neruda e que não conseguiu: “Ele me mandou passear.” O poeta disse que ela era uma péssima jornalista, que exagerava, que se colocava sempre no centro de tudo e que, inclusive como jornalista, Allende era capaz de inventar uma história que não existia. “Por que não muda para literatura, garota? Assim, todos os seus defeitos serão virtudes.”

 

Com o golpe militar dado por Pinochet em 11 de setembro de 1973, que derrubou o presidente Salvador Allende, tio de Isabel, o país não perde só essa jovem jornalista, mas embarca em anos sombrios e marcados pela violência até 1989. A autora e sua família fogem, então, para Caracas, onde ficam exilados durante boa parte de suas vidas. Foi lá que Isabel viveu um período complicado: a experiência e lembrança do passado como uma mulher bem sucedida na carreira nada acrescentava na Venezuela. Ela se viu obrigada a transformar-se exclusivamente em dona de casa, algo que não só não queria, mas que não suportava, ao mesmo tempo em que percebia seu casamento se desgastar.

 

Outro ponto forte da trama é a morte da filha Paula, então com 29 anos, em consequência da porfiria, uma doença rara causada por um defeito na produção de enzimas da hemoglobina, responsável pelo transporte de oxigênio no sangue. Esse problema aumenta a porfirina, uma substância da hemácia, tornando-se tóxica para o corpo. Isabel tenta de tudo para salvar a filha e trazê-la de volta do coma. São anos de dedicação e tipos diferentes de tratamento. Um período de grande dor para toda a família, que depois acaba também se tornando mais um relato sincero num livro conhecido em todo o mundo: Paula.

 

Sofrimentos íntimos, biografias recontadas e modificadas e uma forma de escrever que é impossível parar de ler. O sucesso dos livros da Isabela Allende já mostravam isso. Na série temos a oportunidade de conhecer a mulher por trás da autora, as histórias que inspiraram as histórias. São ótimas atuações, Daniela Ramirez consegue trazer toda a complexidade da vida de Allende em diferentes fases e é tudo tão interessante e tão bem contado que os episódios, que duram cerca de uma hora cada, passam voando.

 

A autora esteve no Brasil na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2010, e foi uma honra não só conhece-la, mas, principalmente, vê-la falar. Hoje ela tem 79 anos e continua produzindo direto de São Francisco, na Califórnia. Acabou de lançar um novo livro e é defensora feroz dos movimentos feministas de massa. Em sua última entrevista para o jornal O Globo ela disse: “Tenho esperanças de que o patriarcado será substituído por um sistema de mundo em que homens e mulheres sejam iguais, tomem as decisões e que os valores masculinos e femininos tenham o mesmo peso na sociedade. Nesse momento, teremos dado um salto evolutivo para um outro tipo de sociedade.”

Isabel Allende e William Gordon na Feira Literária de Paraty – Flip em 2010 . Foto: Marcos Tristão

Daqui fica minha torcida para que a série tenha novas temporadas e a gente consiga saber ainda mais detalhes da história desta mulher que nunca conseguiu fugir do que ela sempre foi: incrível, teimosa e indomável. Uma mulher dedicada, amada e reconhecida em todo mundo pelo que a salvou: a escrita e os livros.

 

*Heloiza Daou é movida a palavra e um pouco obsessiva. É diretora de marketing na Intrínseca e também mãe do Tomás, o job mais insano e amado da vida.

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