Depois de anos priorizando os Reels e os vídeos curtos, a plataforma anuncia o Features, formato horizontal pensado para podcasts, entrevistas e programas completos. A estratégia também inclui integração com a televisão e uma nova relação entre vídeos curtos e longos.
Por Ana Luísa Alverca — Comunicadora
O Instagram está prestes a revisitar uma ideia que parecia ter ficado no passado: os vídeos longos. A plataforma anunciou, nesta segunda-feira (26), os testes de um novo formato chamado Features, que permitirá a publicação de vídeos horizontais com até 90 minutos de duração. A novidade foi apresentada por Adam Mosseri, diretor do Instagram, e Tessa Lyons, vice-presidente de produto da plataforma. O anúncio chama atenção não apenas pela duração dos vídeos, mas pela mudança de posicionamento de uma rede social que, nos últimos anos, concentrou boa parte de sua estratégia no consumo rápido de conteúdo. O próprio Mosseri reconheceu que resistiu durante muito tempo à ideia de investir em vídeos longos. Sua preocupação era que sessões prolongadas de visualização diminuíssem as interações sociais que caracterizam o Instagram, como o compartilhamento de publicações e o envio de conteúdos por mensagens privadas. Agora, a plataforma parece apostar que os dois formatos podem funcionar juntos.
O que é o Features?
O Features é um novo formato de publicação de vídeos longos e horizontais, com duração máxima de 90 minutos, desenvolvido para conteúdos que exigem mais tempo de atenção. Entre os exemplos apresentados estão podcasts, entrevistas, programas de comédia, videoblogs e produções divididas em episódios. Diferentemente dos Reels tradicionais, associados principalmente ao consumo vertical no celular, o Features foi pensado para uma experiência que também faça sentido em telas maiores. Os conteúdos poderão aparecer no feed, na aba Explorar e no aplicativo do Instagram para televisores. O recurso ainda está em fase de testes, com acesso limitado a determinados criadores. Profissionais brasileiros já participam da experiência, enquanto a Meta amplia os testes para um grupo restrito nos Estados Unidos. Até o momento, não há data oficial para uma liberação geral.
O Instagram já tentou isso antes
Quem acompanha a evolução das redes sociais certamente se lembra do IGTV. Lançado em 2018, o aplicativo representou uma das primeiras grandes tentativas do Instagram de conquistar espaço no mercado de vídeos longos. A proposta era oferecer um ambiente dedicado a produções mais extensas, principalmente em formato vertical. Entretanto, o produto não conseguiu estabelecer uma identidade suficientemente forte diante do crescimento de outras experiências de vídeo. O aplicativo independente foi encerrado em 2022, enquanto o Instagram concentrava seus esforços na integração de formatos e na expansão dos Reels. O Features representa uma nova tentativa, mas com uma diferença estratégica importante: em vez de criar um destino separado para o conteúdo longo, a plataforma pretende conectá-lo aos mecanismos de descoberta que já existem no Instagram.
O Reel pode se transformar na porta de entrada
Talvez a mudança mais interessante não esteja nos 90 minutos de duração, mas na relação entre os formatos. A proposta é permitir que um criador publique um episódio completo e utilize trechos curtos nos Reels para apresentar aquele conteúdo a novas pessoas. Nos testes divulgados, é possível vincular até oito clipes de Reels a um vídeo completo. Imagine um podcast com uma hora de duração. Em vez de publicar apenas um corte e direcionar o público para outra plataforma, o criador poderá oferecer a continuidade da experiência dentro do próprio Instagram. O usuário encontra um trecho interessante, assiste e, se desejar aprofundar o assunto, acessa a produção completa. Essa integração pode reduzir a necessidade de sair do aplicativo para acompanhar conteúdos mais extensos. Do ponto de vista da comunicação digital, a proposta combina dois comportamentos diferentes: a descoberta rápida e o consumo aprofundado. O primeiro ajuda a apresentar novos conteúdos. O segundo oferece mais espaço para desenvolver assuntos, narrativas e relacionamentos com a audiência.
A televisão entra na estratégia – Outro elemento importante é a expansão do Instagram para as televisões.
O aplicativo Instagram for TV começou a chegar ao mercado norte-americano em dezembro de 2025, inicialmente com foco nos Reels, e posteriormente passou a alcançar outros dispositivos. A chegada de vídeos horizontais mais longos amplia as possibilidades dessa experiência. Assistir a um trecho de entrevista no celular e continuar acompanhando o episódio completo na televisão é um dos exemplos utilizados para explicar a estratégia. Essa movimentação aproxima o Instagram de um território historicamente associado ao YouTube: o consumo de vídeos extensos em telas maiores. Isso não significa que o Instagram esteja abandonando sua identidade como rede social, mas indica uma tentativa de acomodar diferentes hábitos de consumo dentro do mesmo ambiente.
E a remuneração dos criadores?
Existe uma diferença relevante entre a proposta do Instagram e o modelo consolidado pelo YouTube. Até o momento, a Meta não anunciou um programa de divisão de receitas publicitárias para o Features equivalente ao oferecido pelo YouTube. A empresa afirma que continua explorando possibilidades de monetização envolvendo marcas, fãs e incentivos aos criadores, mas ainda não apresentou um modelo definitivo para o novo formato. Esse ponto será importante para avaliar a capacidade do Instagram de atrair produtores que já investem tempo e recursos em conteúdos longos. A possibilidade de alcançar mais pessoas é relevante, mas a sustentabilidade financeira da produção também pesa nas decisões dos criadores.
O que muda para quem trabalha com marketing e comunicação?
A principal oportunidade está na possibilidade de combinar conteúdos de descoberta com materiais mais aprofundados. Profissionais que já produzem entrevistas, aulas, podcasts ou programas podem encontrar no Instagram um novo espaço de distribuição, sem necessariamente abandonar os canais que utilizam atualmente. Mas é importante evitar conclusões precipitadas. O Features ainda está em testes. Não sabemos quando será liberado para todos, como será sua distribuição em escala, quais indicadores de desempenho estarão disponíveis ou como o público responderá ao formato no longo prazo. Também não existe garantia de que vídeos extensos terão maior alcance apenas por serem longos. A duração, isoladamente, não determina a qualidade de uma estratégia. Para marcas e criadores, a pergunta continua sendo a mesma: qual formato é mais adequado à mensagem e ao comportamento das pessoas que desejamos alcançar? Um vídeo de 30 segundos pode resolver uma dúvida. Uma entrevista de 40 minutos pode aprofundar uma discussão. Os dois podem ter funções diferentes e complementares.
O vídeo curto não morreu. Ele ganhou uma nova função.
A novidade anunciada pelo Instagram não representa necessariamente o fim da preferência por vídeos curtos. Pelo contrário: os Reels continuam ocupando um papel importante na proposta apresentada pela plataforma. A diferença é que agora eles poderão funcionar também como uma ponte para produções mais extensas. É uma mudança interessante na maneira de organizar a experiência do usuário: o conteúdo curto desperta a atenção, enquanto o conteúdo longo oferece espaço para aprofundamento. O Instagram já tentou conquistar esse mercado com o IGTV e não conseguiu consolidar aquela experiência. Desta vez, aposta na integração com os Reels, nos recursos de descoberta e na expansão para a televisão. Se a estratégia funcionará, ainda é cedo para afirmar. Mas uma coisa fica evidente: a disputa entre as plataformas não é apenas por visualizações. É também pelo tempo, pela atenção e pela relação que as pessoas constroem com os conteúdos que consomem. E, para quem trabalha com comunicação, acompanhar essas mudanças é importante sem esquecer uma regra que continua válida independentemente do formato: não basta ocupar mais tempo na tela. É preciso ter algo relevante para comunicar.
