Pode parecer exagero, mas repare na próxima vez que você sair para almoçar ou jantar.
Alguém pede apenas uma água.
Outro diz que “já comeu”.
Alguém passa o tempo todo justificando por que vai pedir sobremesa.
E quem faz um prato normal, muitas vezes, escuta:
“Você vai comer tudo isso?”
“Você ainda consegue comer sobremesa?”
“Eu só vou beliscar.”
“Nossa, hoje eu chutei o balde.”
Quando foi que comer virou motivo de culpa?
As canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade e têm seu papel quando bem indicadas. Mas talvez também tenham acelerado uma tendência que já existia: comer cada vez menos passou a ser visto como sinal de disciplina, autocontrole e sucesso.
E aí surge o efeito manada.
Mesmo quem não usa esses medicamentos pode começar a se sentir inadequado por sentir fome, fazer uma refeição completa ou simplesmente comer sem culpa.
Vivemos uma era em que mostrar que “não come” parece virtude, enquanto comer normalmente quase exige explicação.
Mas comida nunca foi apenas combustível.
Ela é cultura.
É memória.
É encontro.
É prazer.
É conexão.
Claro que saúde importa. E fazer boas escolhas também, porém, existe uma enorme diferença entre comer com consciência e viver com medo da comida.
Quando todo prazer é reprimido, ele costuma encontrar outra saída. Pode aparecer na forma de compulsão, ansiedade ou naquela sensação constante de estar sempre “saindo da dieta”.
Uma relação saudável com a comida é aquela em que você consegue nutrir o corpo, aproveitar a companhia das pessoas e sair da mesa em paz.
Sem culpa. Sem vergonha. Sem precisar justificar o que colocou no prato.
Será que estamos normalizando um comportamento que, no fundo, não é saudável? Você também tem percebido isso?
Referências: World Health Organization. Obesity and overweight; Academy of Nutrition and Dietetics. Position Paper: Interventions for the Treatment of Overweight and Obesity in Adults; Janet Polivy, & C. Peter Herman. Dieting and Binging: A Causal Analysis (1985).

Por Ana Tereza Braga
Sou acadêmica de Nutrição da Faculdade Santa Teresa e apaixonada por comida de verdade — aquela que nutre, equilibra e transforma de dentro para fora. Meus conteúdos têm como base a ciência, com foco em saúde metabólica, equilíbrio hormonal e nutrição sem achismos. De forma clara e prática, mostro como ajustar a alimentação e o estilo de vida estrategicamente, respeitando as mudanças naturais do corpo ao longo dos anos. Tenho um olhar atento para prevenção, composição corporal e longevidade, e meu objetivo é traduzir temas complexos em orientações simples e aplicáveis no dia a dia.
