*Da Redação Dia a Dia Notícia
O Desafio Bioinovação Amazônia selecionou dez propostas tecnológicas voltadas ao aproveitamento sustentável da biodiversidade da região com aplicações que vão da produção de cosméticos e ingredientes funcionais ao desenvolvimento de materiais para a área da saúde. A iniciativa, realizada pelo Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), por meio da ZÔMA, recebeu quase 500 inscrições de participantes de mais de 80 países.
Com financiamento do Bezos Earth Fund e parceria da Penn State University, o programa busca aproximar pesquisadores, empreendedores, indústrias e comunidades amazônicas para desenvolver soluções capazes de agregar valor às cadeias produtivas da sociobiodiversidade.
As dez propostas foram selecionadas após etapas de formação, desenvolvimento de projetos e apresentação de soluções a uma banca especializada. A iniciativa contempla seis áreas tecnológicas, incluindo o aproveitamento de resíduos de frutas, o desenvolvimento de amidos funcionais, a melhoria da cadeia da castanha-do-brasil e a criação de produtos derivados de óleos amazônicos e da borracha.
Resíduos amazônicos podem virar ingredientes e biomateriais
Entre os projetos selecionados está uma tecnologia que transforma caroços de açaí em extratos bioativos, por meio de um processo de extração ambientalmente mais sustentável. A proposta é da BioExtrativa, desenvolvida por Ramon Sousa Barros Ferreira e Carolina Itoda.
Outra iniciativa busca produzir ingredientes cosméticos ricos em carotenoides a partir de resíduos do buriti. Desenvolvida por Weliton Pedro Batiston e Silvia Luciane Basso, a solução prevê a possibilidade de participação de cooperativas no pré-beneficiamento da matéria-prima.
O aproveitamento do babaçu e do açaí também aparece entre as propostas. Leonardo Sia e Menfecy Almeida Amaral trabalham em um modificador sensorial para cosméticos feito a partir da farinha de babaçu. Já Nathiel Moraes e Paula Moreira desenvolveram a BioGel, plataforma à base de amido voltada à conservação do açaí e à extração de compostos bioativos.
Na cadeia dos óleos amazônicos, Danilo José Machado de Abreu e Cassiana Mendes propõem o uso de um coquetel multienzimático para ampliar a extração do óleo de buriti e preservar seus compostos bioativos. Segundo os resultados apresentados pela dupla, os ensaios realizados mais do que duplicaram o rendimento.
A Oiru Bio, de Isabella Barbosa e Marina Aoe Shimono, desenvolve uma tecnologia que combina software de rastreabilidade e sensores não invasivos para identificar espécies oleaginosas e estimar seu potencial produtivo, incluindo árvores de copaíba.
Projetos também exploram aplicações na saúde
Quatro propostas selecionadas têm foco em tecnologias relacionadas ao cuidado da pele e à liberação de compostos bioativos.
A ACUS, desenvolvida por Letícia Scherer Koester e Taris Macedo, trabalha com microagulhas poliméricas dissolvíveis para a liberação de bioativos amazônicos na pele. Já Samanta Finsterbuch e Cassiana Mendes propõem um nanorrepelente formulado com compostos de andiroba e copaíba.
A BioSpin NanoLift, de Andrey Marcos Pinho da Silva e Taris Macedo, busca desenvolver uma nanofibra biodegradável para a liberação gradual de bioativos em aplicações relacionadas ao cuidado de feridas.
A quarta iniciativa, Cahuchu Elixir, de Ana Karoline Almeida da Silva e Rashmi Prakash, combina biopolímeros reaproveitados e nanobioativos amazônicos em uma plataforma voltada ao cuidado avançado da pele.
As tecnologias selecionadas estão em diferentes estágios de maturidade e ainda precisam passar por etapas de validação e desenvolvimento antes de possíveis aplicações comerciais.
Comunidades participam da construção dos projetos
Um dos diferenciais do Desafio Bioinovação Amazônia é a participação de organizações comunitárias na definição dos desafios tecnológicos. A COOPEACRE, no Acre, e a Vem do Xingu, no Médio Xingu, no Pará, contribuíram para a construção das demandas de pesquisa, incorporando conhecimentos tradicionais, necessidades produtivas e oportunidades identificadas nos territórios.
A análise de oportunidades de mercado para as biomassas amazônicas também contou com o Instituto SENAI de Inovação em Biossintéticos e Fibras, da Firjan, que avaliou aspectos como potencial tecnológico, valor agregado e aplicações industriais.
O programa reúne ainda instituições de pesquisa, como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Centro de Bionegócios da Amazônia (CBA), além da Emerge Brasil e de empresas como Natura, CitroBio, Givaudan, BossaPack e Symrise.
A proposta é aproximar a pesquisa científica das necessidades do mercado e ampliar as possibilidades de licenciamento de tecnologias, criação de startups de base científica e parcerias comerciais.
Equipes terão apoio para validar tecnologias
Com a seleção das dez propostas, o programa avança para as etapas de validação tecnológica e aproximação com parceiros industriais e organizações comunitárias. Estão previstas atividades de residência na Amazônia, apoio técnico e acesso à infraestrutura de pesquisa para aprimorar as soluções e avaliar sua viabilidade.
A chamada prevê cerca de R$ 100 mil por equipe para a validação tecnológica. Além disso, será concedido um prêmio final de R$ 450 mil, distribuído entre as três equipes mais bem classificadas.
Realizado pela ZÔMA, geradora de negócios do Idesam, o desafio busca transformar oportunidades da sociobiodiversidade em produtos, tecnologias e empreendimentos inovadores. A iniciativa aposta na colaboração entre comunidades, pesquisadores e empresas para fortalecer a bioeconomia amazônica e ampliar a geração de valor a partir dos recursos da região.
