Voltei para o Pará recentemente e tive a grata alegria de realizar um sonho: conhecer uma parte do famoso Arquipélago do Marajó. Um lugar que ganhou meu coração pelas belezas naturais, pela gastronomia marcante, pelas tradições locais e, principalmente, pelas pessoas que encontrei pelo caminho.
Saindo de Belém, seguimos de barco até o município de Curralinho, um território profundamente ligado às águas. Por ali, o deslocamento entre comunidades e áreas rurais acontece em pequenas embarcações, que fazem parte da rotina de quem vive na região.

Foi nas comunidades de Curralinho que vivi uma experiência única, repleta de aprendizados, descobertas e muita gratidão. Tive a oportunidade de ouvir histórias, experimentar sabores e conhecer de perto a relação das pessoas com a floresta, as águas e o território.
Entre rios, igarapés, açaizeiros e comunidades, o Marajó revela uma Amazônia que tem seu próprio ritmo. Ali, o turismo é também um convite para desacelerar, conhecer os lugares com calma, atenção e respeito.

Tomar um banho de rio. Sentar para conversar com um morador. Acompanhar a subida e a descida das águas, que acontece mais de uma vez ao dia. Experimentar uma comida preparada na própria comunidade. Conhecer o trabalho de quem vive da pesca, da retirada do açaí e do artesanato. Ouvir tradições, dançar carimbó e observar o fim da tarde enquanto as águas seguem seu movimento.
São experiências únicas que nos fazem perceber que viajar também pode ser uma forma de olhar com mais atenção para o lugar que estamos conhecendo.

É nesse contexto que o Turismo de Base Comunitária (TBC) ganha um significado especial. A experiência deixa de ser apenas a contemplação de uma paisagem e passa a incluir quem vive nela, conhece seus caminhos, seus sabores, suas histórias e seus ciclos. E, ao mesmo tempo, pode contribuir para gerar oportunidades e renda para os moradores.

Um dos momentos mais especiais da nossa imersão foi conhecer de perto como é feita a retirada do açaí, atividade que faz parte da rotina, da cultura e da economia de muitas famílias paraenses. Conhecer essa cadeia produtiva é também entender um pouco mais sobre a relação entre as pessoas, a floresta e os rios amazônicos.
Amei aprender a subir no açaizeiro — mesmo sem conseguir chegar no meio da palmeira — e conhecer a peconha, feita de corda, fibras vegetais ou tecido, que os coletores colocam nos pés para subir em palmeiras altas.

Foi uma experiência que me fez compreender melhor a habilidade, a força e o conhecimento envolvidos em uma atividade tão presente no cotidiano do bioma amazônico.
E, se tem uma coisa que não pode faltar em uma viagem pelo Pará, é a gastronomia. Peixes, caranguejo, queijo do Marajó, frutas e ingredientes da floresta aparecem em receitas que carregam a identidade da região. Foi uma das partes mais deliciosas da vivência: provar peixes e o camarão, muitas vezes acompanhados de um açaí preparado na hora.

Outro encontro indispensável é com o carimbó, uma forte expressão cultural, de memória e celebração. Os tambores, os passos e a roda ajudam a manter viva uma tradição que atravessa gerações e conta parte da história do Pará por meio da música e da dança.
E, claro, não volte para casa sem levar uma lembrança do Marajó. O artesanato, a cerâmica, as biojoias e os produtos feitos com sementes carregam saberes, criatividade e histórias transmitidas entre gerações. São lembranças que também levam um pouco do território para quem parte.

Minha passagem por Curralinho me fez perceber que a maior riqueza do Arquipélago do Marajó está nos rios, na floresta repleta de açaizeiros, nos sabores, no carimbó, no artesanato, nas histórias, nas tradições locais e, principalmente, nas pessoas.
Mas está também na sensação de estar em um lugar tão forte, que parece nos pedir para desacelerar, respirar e simplesmente aproveitar o que está ao nosso redor.

Talvez seja essa uma das maiores riquezas de viajar: voltar para casa levando não apenas fotografias e lembranças, mas também novos olhares, aprendizados e muitas histórias para contar.
* Toda essa vivência no Marajó fez parte das atividades da primeira edição da Semana Dudu da Floresta – Sociobiodiversidade e Bem-Viver, realizada na Comunidade Nossa Senhora da Boa Esperança, em Curralinho, no arquipélago do Marajó. O evento homenageou Dulcimar Baratinha de Moraes, liderança da região e conhecido como Dudu da Floresta, reunindo representantes de comunidades tradicionais, instituições públicas, universidades e organizações da sociedade civil para debater temas como governança territorial, justiça social, economia da floresta e conservação ambiental.
*Na programação, aconteceu uma série de atividades de formação, intercâmbio de experiências e valorização dos saberes locais, além de debates sobre organização comunitária, regularização fundiária e governança territorial. Também foi feito o lançamento da Carta Dudu da Floresta, que propõe avançar na construção do conceito de Economia da Floresta Viva e reunir conhecimentos tradicionais, pesquisa acadêmica e políticas públicas para reconhecer o valor gerado nos territórios amazônicos.
E você? Já esteve no Marajó ou tem vontade de conhecer? Conta nos comentários!

