Manaus, quinta-feira 3 de setembro de 2026
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Comunidades amazônicas relatam seca e perdas na produção diante do risco de novo El Niño

Foto: Rodolfo Pongelupe

*Da Redação Dia a Dia Notícia 

Comunidades amazônicas já enfrentam redução no volume de rios, lagos e igarapés, dificuldades de deslocamento e perdas na pesca e na produção de alimentos diante do risco de um novo El Niño em 2026 e 2027. Para antecipar os possíveis impactos e preparar os territórios, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) lançou nessa terça-feira, 1º, a Aliança Adaptação El Niño 2026-27: agir antes da emergência.

Os relatos envolvem diferentes áreas da vida comunitária, incluindo acesso à água, transporte, pesca, produção de alimentos, educação, saúde, turismo e escoamento da produção.

Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, o morador Alcione Rodrigues, da Comunidade Nossa Senhora de Fátima, relatou a redução do nível da água e os impactos na produção agrícola.

Foto: Rodolfo Pongelupe

“As mudanças do clima para a gente estão absurdas. Em 15 dias, tínhamos uns 20 metros de água e agora não temos mais acesso. A maniva está murchando e queimando. Estamos sem saber o que fazer em relação à seca. Neste período, já precisamos percorrer três quilômetros para chegar à praia”, afirmou.

Aliança busca antecipar impactos

A Aliança Adaptação El Niño terá como foco o monitoramento das condições ambientais e climáticas, a identificação das áreas mais vulneráveis e a mobilização de recursos e parceiros para ações de prevenção, adaptação e resposta.

A proposta é transformar os relatos e demandas apresentados pelas próprias comunidades em medidas de preparação antes que eventuais condições climáticas extremas provoquem novas situações de emergência.

“Essa aliança nasce da experiência que acumulamos em outros momentos de crise, como a pandemia, as grandes cheias e as secas de 2023 e 2024. Agora, diante do risco de um novo El Niño, queremos reunir associações indígenas, quilombolas, ribeirinhas, organizações e parceiros para agir de forma conjunta”, afirmou Virgilio Viana.

Secas anteriores servem de alerta

Foto: Rodolfo Pongelupe

A iniciativa considera os impactos das secas registradas na Amazônia em 2023 e 2024, quando comunidades enfrentaram dificuldades para acessar água potável, alimentos, serviços de saúde, educação e transporte.

Kelly Regina, moradora da Comunidade Santa Rita do Uarumã, na RDS Piagaçu-Purus, afirmou que o acesso à água continua entre as principais preocupações.

“Nossa maior dificuldade é a água potável. Desde 2023, temos passado por momentos difíceis. Em 2024, sofremos uma seca extrema e nosso maior medo de 2026 é que isso se repita”, relatou.

Segundo a FAS, a mobilização iniciada em 2023 para responder aos efeitos da seca reuniu 80 organizações socioambientais, além de representantes de centros de pesquisa, e alcançou 12.068 pessoas no Amazonas.

Para 2026 e 2027, a estratégia pretende unir monitoramento, conhecimento científico e participação das comunidades para definir medidas emergenciais e ações de adaptação de longo prazo.

Água e prevenção às queimadas estão entre prioridades

Entre as ações já realizadas pela FAS estão iniciativas de acesso à água potável que beneficiaram 7.185 pessoas e a mobilização de 43 toneladas de alimentos para comunidades tradicionais, em parceria com o Festival da Cunhã.

Também está prevista a contratação de 153 brigadistas em 2026, por meio do Programa Floresta em Pé, para reforçar a prevenção e o combate aos incêndios florestais no Amazonas.

Durante o encontro, as lideranças apontaram como prioridades a construção e adequação de poços artesianos, instalação de sistemas de energia solar para abastecimento de água, transporte para pacientes e estudantes, formação de brigadistas, prevenção às queimadas, segurança alimentar e elaboração de planos comunitários de adaptação.

“Quem vive nos territórios percebe primeiro as mudanças e também conhece as soluções que podem funcionar em cada realidade”, afirmou Valcléia Lima, superintendente-geral adjunta da FAS.

Também participou da abertura Ana Claudia Leitão, chefe do Departamento de Mudanças Climáticas e Gestão de Unidades de Conservação (Demuc), da Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).

Aplicativo vai reunir dados das comunidades

Como parte da estratégia, a FAS desenvolve um aplicativo para registrar demandas relacionadas aos possíveis impactos do El Niño na Amazônia Legal.

A ferramenta deverá organizar as informações compartilhadas pelas lideranças e auxiliar na identificação dos territórios mais vulneráveis. Os dados também poderão orientar a mobilização de parceiros, recursos e ações de prevenção e resposta.

A intenção é manter um processo contínuo de acompanhamento das comunidades, conectando as informações levantadas nos territórios às decisões e investimentos necessários para enfrentar possíveis impactos climáticos.

Nota

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