Manaus, terça-feira 24 de fevereiro de 2026
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Como o ESG chegou aos municípios brasileiros

Durante anos, o ESG esteve associado apenas ao mercado financeiro e às grandes corporações listadas em bolsa. O conceito ganhou força em 2004, quando o então secretário-geral da ONU, Kofi Annan, provocou instituições financeiras a incorporarem critérios ambientais, sociais e de governança às decisões de investimento. O que começou como recomendação ética evoluiu para critério de competitividade global.

A virada que aproximou essa agenda da gestão pública ocorreu em 2015, com a aprovação da Agenda 2030 e dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Embora a sigla ESG não apareça formalmente no documento, seus pilares já estavam ali: proteção ambiental, redução das desigualdades e fortalecimento institucional. Municípios mais avançados perceberam a necessidade de trazer os ODS pra perto das gestões. Institutos se aproximaram e a mecânica de metas e indicadores ganhou força no poder público.

Rankings começaram a medir o desempenho local frente às metas globais. Prefeituras passaram a ser comparadas entre si. O debate deixou de ser abstrato. A execução passou a ser territorial. O que era compromisso internacional transformou-se em responsabilidade municipal.

Assim, o ESG começou a se aproximar das cidades — ainda sem ser chamado por esse nome.

Governança, integridade e acesso a recursos

Se a Agenda 2030 abriu o caminho conceitual, a legislação brasileira acelerou a institucionalização da governança. A Lei Anticorrupção (2013), a Lei das Estatais (2016) e a Nova Lei de Licitações (2021) elevaram o padrão de integridade exigido na administração pública. Mais recentemente, municípios passaram a exigir programas de integridade de empresas contratadas.

Mesmo sem utilizar a sigla ESG, as prefeituras começaram a falar em compliance, gestão de riscos, auditoria baseada em evidências, indicadores de desempenho e transparência ativa. O “G” da governança entrou pela porta da obrigação legal.

Paralelamente, bancos públicos e organismos multilaterais passaram a condicionar financiamentos a critérios ambientais e sociais. Municípios com plano de ação climática estruturado, política de resíduos sólidos consolidada, indicadores sociais claros e governança institucional organizada passaram a ter mais facilidade no acesso a crédito e cooperação técnica.

O ESG deixou de ser discurso corporativo e tornou-se instrumento de captação de recursos e fortalecimento institucional.

Consolidação da agenda municipal

A realização da COP30 no Brasil representou um ponto de inflexão. O debate climático deixou de ser exclusivamente federal e passou a pressionar estados e, sobretudo, municípios. Afinal, é no território municipal que acontecem a coleta de resíduos, a drenagem urbana, a arborização, o transporte público e o ordenamento do solo.

O mundo começou a olhar para as cidades.

Nesse contexto, muitos questionam se o ESG nos municípios seria apenas uma nova forma de nomear obrigações constitucionais que sempre existiram. A resposta não está na obrigação, mas no método. O ESG organiza, mede, compara e posiciona. Ele integra meio ambiente, social e governança em uma estratégia única. Conecta plano plurianual, metas e indicadores. Traduz a gestão pública para uma linguagem compreendida por investidores, organismos internacionais e sociedade civil.

Quando um município adota essa abordagem, ele deixa de atuar por iniciativas isoladas e passa a trabalhar com estratégia integrada. Fortalece sua credibilidade institucional, amplia sua capacidade de captação de recursos e se posiciona nacionalmente.

O ESG chegou aos municípios brasileiros não como modismo, mas como evolução natural da gestão pública contemporânea. Se nasceu no mercado financeiro e amadureceu nas corporações, é nos municípios que ele encontra seu maior campo de transformação. Porque é ali que metas globais se transformam em políticas locais.

E tudo indica que, a partir de agora, essa agenda deixará de ser diferencial para se tornar padrão.

Por Elendrea Cavalcante

Jornalista, com especialização em ESG e Sustentabilidade Corporativa e também em Comunicação Empresarial e Marketing. Possui mais de 20 anos de atuação no mercado de Comunicação, com ampla experiência em jornais, agências e setor público. Foi subsecretária de Comunicação do município de Manaus, onde também atuou em outros cargos de gestão. As experiências acumuladas no serviço público e no campo corporativo levaram-lhe à paixão pelo ESG, associando-o à Comunicação.

 

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