Manaus, quarta-feira 4 de março de 2026
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Estudo aponta que Bolsa Família leva metade das famílias beneficiadas a deixar mercado de trabalho

*Da Redação Dia a Dia Notícia 

Um estudo do FGV Ibre aponta que, a cada duas famílias beneficiadas pelo Bolsa Família, uma deixa o mercado de trabalho, efeito mais visível entre homens jovens, de 14 a 30 anos, nas regiões Norte e Nordeste. A pesquisa, conduzida pelo economista Daniel Duque, analisou os impactos do programa após o aumento do valor médio do benefício para cerca de R$ 670 em 2023.

O estudo aponta que as chances de estar ocupado e de ter um emprego formal caíram 12% e 13%, respectivamente, entre os beneficiários recém-incluídos. O impacto é concentrado em homens jovens de 14 a 30 anos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.

O pesquisador do FGV Ibre, Daniel Duque, avalia que muitos beneficiários do Bolsa Família evitam empregos formais por receio de perder o acesso ao programa. “O governo tem informações sobre vínculos formais, mas não sobre ocupações informais. Isso gera a preocupação de que um emprego registrado torne a família inelegível ao benefício”, explicou.

Segundo ele, entre os elegíveis ao programa houve uma redução de 11% na participação no mercado de trabalho em comparação com quem não recebe o auxílio. Apesar das regras de desligamento gradual, a percepção de risco em relação à renda garantida pesa mais do que a estabilidade de um trabalho formal.

Duque alerta ainda para os efeitos de longo prazo, principalmente entre os jovens. “O primeiro emprego é fundamental para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, disciplina e experiência prática. Adiar essa etapa prejudica a trajetória profissional e pode reduzir a renda ao longo da vida”, disse à CNN. Pesquisas internacionais, segundo ele, mostram que atrasar em um ano a entrada no mercado de trabalho tem impacto semelhante à perda de um ano de escolaridade, com queda de até 10% nos salários futuros.

A maior retração ocorre nas regiões Norte e Nordeste, onde os salários médios são mais baixos. Nesses locais, o valor do benefício chega a se aproximar da remuneração de mercado. “São os jovens dessas regiões os que mais abandonam o trabalho formal”, destacou.

Para reduzir distorções, o pesquisador defende ajustes no programa, como a diminuição do valor pago a jovens sem perspectiva de estudo, de forma a estimular sua entrada no mercado. Os recursos economizados, segundo ele, poderiam reforçar transferências a mães com filhos pequenos ou jovens que deixaram a escola por necessidade de renda.

Outra proposta é integrar o Bolsa Família a políticas de educação e qualificação, garantindo renda a estudantes e ampliando iniciativas como o programa Pé-de-Meia, que incentiva a conclusão do ensino médio. “O benefício poderia ser usado para apoiar a permanência no ensino, inclusive técnico, e vinculado a políticas ativas de emprego”, disse.

Pós-pandemia e expansão do programa

Criado em 2003, o Bolsa Família pagava, em média, R$ 190 em 2019 e atendia 14 milhões de famílias. Duas décadas depois, em 2023, o número de beneficiários chegou a 21 milhões e o valor médio mais que triplicou, para R$ 670. O orçamento anual saltou de R$ 35 bilhões, em 2017, para R$ 170 bilhões.

Esse crescimento, afirma Duque, ajuda a explicar por que a taxa de participação no mercado de trabalho não voltou ao patamar pré-pandemia. Antes da crise sanitária, ela era de 63,6%. Caiu para 57,3% no segundo trimestre de 2020, subiu até 62,7% em 2022 e voltou a recuar com a elevação do benefício para R$ 600, chegando a 61,6% no início de 2023. No primeiro trimestre de 2025, estava em 62,2%, ainda abaixo do nível de 2019.

Hoje, mais de 50 milhões de pessoas recebem o benefício. Mensalmente, o Ministério do Desenvolvimento Social informa a saída de milhares de famílias que alcançam renda incompatível com o programa.

Novas regras de transição

Desde junho de 2025, estão em vigor novas regras de proteção. Famílias que ultrapassarem o limite de renda de R$ 218 per capita poderão permanecer por até 12 meses, recebendo 50% do valor do benefício, desde que a renda não ultrapasse R$ 706 per capita.

Para famílias com rendas estáveis, como aposentadoria, pensão ou Benefício de Prestação Continuada (BPC), a permanência no programa é de até dois meses. Já no caso de beneficiários com deficiência que recebem o BPC, a proteção pode durar até 12 meses.

Segundo o ministério, as mudanças visam concentrar os recursos nas famílias em maior vulnerabilidade e garantir a sustentabilidade do Bolsa Família.

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