A forte retomada da produção industrial no Amazonas reflete a capacidade de recuperação da economia após o isolamento social. Também pode ser o primeiro interpretada como sinal de recuperação em muitos outros estados brasileiros, uma vez que uma das principais vocações do Polo Industrial de Manaus, mais conhecido como Zona Franca, é a produção de insumos e matérias primas para outras indústrias, de acordo com a reportagem da Folha de São Paulo.
A análise é do coordenador de Disseminação do pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no Amazonas, Adjalma Nogueira Jaques, com base nos dados da Pesquisa Industrial Mensal, divulgada nesta terça-feira (11).
Primeiro estado a sofrer um colapso no sistema de saúde por conta da pandemia de Covid-19 e também o primeiro a registrar uma tendência de queda nos casos e óbitos, o Amazonas liderou a recuperação da produção industrial entre os 15 estados brasileiros analisados no mês de junho, com 65,7% de crescimento em comparação com maio de 2020. Esse resultado em junho ficou bem acima da média nacional para o período, que teve uma alta de 8,9%.
A expansão foi impulsionada pela produção de discos fonográficos (84%), borracha e material plástico (26,6%), motocicletas e peças (15,2%), produtos de metal (10,9%) e eletroeletrônicos ( 9,1%).
“Nossa indústria produz, na sua maioria, para atender uma demanda de indústrias de outros estados. Significa que essas outras indústrias já estão tendo ou devem ter em breve aumento de demanda”, analisou Jaques.
É o caso da produção de borracha e material plástico e de produtos de metal, por exemplo, que estão entre os setores que tiveram os maiores crescimentos em junho.
Outro fator que impulsionou a recuperação da economia amazonense, segundo Jaques, é o aumento da demanda do consumidor, que pode ser medido no crescimento das indústrias de motocicletas e de eletroeletrônicos, especialmente televisores e celulares.
“Isso pode ter, em parte, ter relação com o isolamento social, que leva ao aumentou a demanda pelos aparelhos eletrônicos e serviços de entrega em motocicletas, mas também pode indicar os efeitos da reabertura do comércio em geral”, explicou o coordenador do IBGE.
Para o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco, a retomada da produção industrial no Amazonas está ligada à flexibilização das regras de distanciamento e isolamento social em todo o Brasil.
“Esse é o reflexo do início da flexibilização do isolamento social. O comércio começa a ter atividade e essa atividade gera demanda de produção para a indústria. E agora podemos produzir, porque durante o lockdown em outros estados, os caminhões não podiam nem entrar nas cidades”, analisou.
Segundo ele, a reposição do estoque de boa parte das indústrias, que estavam com a produção parada não por falta de demanda, mas de matéria prima, também influenciou essa alta.
Boa parte das indústrias da Zona Franca de Manaus depende de insumos importados, muitos deles, da Ásia.
Outro fator que pode estar refletindo positivamente na produção industrial, aponta Périco, é a expectativa de melhora no comércio no fim do ano.
“Devido às nossas condições logísticas, os produtos que saem de Manaus levam de duas a três semanas para chegar ao mercado consumidor do Sul e Sudeste, e as empresas se planejam para atender a demanda do fim do ano no início do segundo semestre. Muito provavelmente essa atividade já é um reflexo dessa preparação para a demanda de fim de ano”, apontou.
Mas nem todos os setores da economia do Amazonas tiveram resultados positivos em junho. Metade dos setores pesquisados pelo IBGE apresentou resultados negativos. Um deles foi a produção de bebidas, que teve queda de 21,9% em junho, em comparação com maio de 2020, apontou o instituto.
Foi a segunda maior redução, menor apenas do que a da fabricação de coque, derivados de petróleo e biocombustíveis, que caiu 35%.
Para o IBGE, diversos fatores influenciam essa queda na produção de bebidas no Amazonas, uma vez que a região produz o xarope utilizado para a fabricação de refrigerantes destinados a toda a América Latina, e todos os mercados consumidores sofreram algum nível de impacto.
“Se estivéssemos vivendo um momento normal, seria fácil apontar a falta de demanda, mas não é tão simples assim”, disse Jaques.
Para o presidente do Cieam, Wilson Périco, a queda na produção industrial de bebidas não está ligada à falta de matéria prima ou à pandemia, trata-se de uma “flutuação normal”.
“O setor de bebidas não sofreu muito com a pandemia, porque os supermercados estavam abertos, o consumo não parou em nenhum momento. Pode ser alguma flutuação normal do segmento, e tem também a questão do inverno no sul e sudeste, que reduz a demanda”, justificou.
A maior preocupação do Cieam, aponta Périco, é com o polo relojoeiro que, além da pandemia, enfrenta a concorrência dos produtos importados. Sem demanda, duas das quatro empresas relojoeiras de Manaus estão operando com 40% da capacidade e, as outras duas, com apenas 25% dos funcionários.
“São empresas nacionais que não têm fôlego para suportar tanto tempo de recessão. O risco de demissões existe”, alertou Périco, lembrando que as quatro empresas têm aproximadamente 800 funcionários.
Retomada x novo pico
Cerca de 90% da produção industrial no Amazonas chegou a ser paralisada entre os meses de abril e maio, quando ocorreu o pico da pandemia em Manaus. No fim de maio, as empresas começaram a retomar as atividades e, em junho, todas já haviam voltado a operar, mas cumprindo protocolos de segurança contra a Covid-19, como distanciamento nas linhas de produção e refeitórios, redução da capacidades dos ônibus de transporte para 50% e aferição da temperatura dos operários.
De acordo com dados do Cieam, das 15 empresas do setor de eletroeletrônicos, nove estão operando com 100% de sua capacidade e as outras 12 estão trabalhando com 80% da capacidade.
