*Da Redação Dia a Dia Notícia
Em 2021, a Agência Pública revelou denúncias chocantes envolvendo Samuel Klein, fundador da Casas Bahia, falecido em 2014. Segundo a investigação, o empresário teria ao longo de décadas, mantido um esquema de aliciamento de crianças e adolescentes para exploração sexual, nas dependências da sede da empresa em São Caetano do Sul (SP) e em outros imóveis em Santos, São Vicente, Guarujá (SP) e Angra dos Reis (RJ). O filho de Klein também foi alvo de investigações por estupro de mais de 30 mulheres e testemunhas afirmaram que os dois agiam de forma semelhante.
Na época, a reportagem entrevistou mais de 35 fontes, incluindo vítimas que acusaram Samuel Klein, advogados e ex-funcionários da Casas Bahia e da família, além de consultar processos judiciais, inquéritos e outros documentos relacionados ao caso. Segundo as acusações, o empresário teria mantido de 1989 a 2010, uma rotina de exploração sexual de meninas, entre 9 e 17 anos, na sede da empresa e em outras casas registradas em seu nome. Além disso, o homem teria organizado um recrutamento de meninas para eventos de festas e orgias. No seu trâmite de manipulação, Klein pagava as vítimas e familiares e oferecia produtos das suas lojas.
O crime acabou sendo descoberto, somente a partir das denúncias envolvendo Saul Klein, filho e herdeiro da empresa, onde o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) investigou possíveis casos de aliciamento e estupro de várias mulheres. Dessa forma, a Agência Pública apurou e divulgou histórias de abuso silenciadas por muitos anos.
Início da Casas Bahia
Samuel Klein nasceu na Polônia em 1923, ele viveu na ocupação nazista em sua terra natal e foi levado ao campo de concentração de Majdanek aos 19 anos. Samuel conseguiu fugir do campo de concentração e, nos anos 1950 Imigrou para o Brasil, onde começou a vender diferentes produtos em cima de charrete na cidade de São Caetano do Sul, no estado de São Paulo. Nesse período, ele fundou a primeira loja da empresa, em 1952.
Klein virou nome de rua na cidade onde se estabeleceu e até hoje é visto como um dos grandes nomes do mundo dos negócios da história do Brasil.
Relato dos crimes
Karina Lopes Carvalhal
Uma das vítimas, Karina Lopes Carvalhal, hoje com 46 anos, tinha apenas nove anos quando sofreu violência sexual, em 1989. Conforme relato, ela soube através de suas irmãs que o empresário presenteava menores de idade que fossem à sede da empresa. Como precisava de um tênis, ela decidiu ir.
“Eu não tinha um tênis pra pôr, usava o das minhas irmãs, meus dedos eram todos tortos”, disse.
Quando chegou ao local, Karina foi levada ao escritório particular de Samuel Klein e em seguida foi abusada.
“Ele me cumprimentou e já passou a mão nos meus peitos. Ele dizia que moça bonita. Muito linda”, relembra.
Ao ir embora, a mulher sentiu alívio e conseguiu levar para casa o tênis e uma quantia em dinheiro.
“A gente ficava contente que tinha ganhado um tênis. Não tínhamos noção dessa situação de violência”, afirmou.
A vítima ainda disse que nas outras visitas, os abusos se intensificaram e se tornaram rotina.
“A segunda vez, ele já me levou pro quartinho e me abusou”.
Os relatos afirmam que os abusos eram explícitos, Klein recrutava o grupo que iria ao quarto, normalmente sem uso de preservativos.
Uma das vítimas conta que Klein tinha preferência por mulheres virgens.
“Quando ele perdia o interesse, a gente levava uma menina mais nova pra encantar mais ele, entendeu? Ele dava mais dinheiro pra gente, poderia pegar mais coisa: um armário, uma TV. Aí a gente estourava”.
Cláudia, uma outra vítima, disse que muitos funcionários que trabalhavam para Samuel também recrutavam meninas para o filho dele.
“Ele (Samuel) era pedófilo, agia como um. Gostava de meninas com o corpo menos evoluído, que era meu caso. Então ele gostou de mim. A gente tinha que ficar mentindo porque ele gostava disso”, completou.
Outras testemunhas
Testemunhas como seguranças, ex-funcionários, motoristas de táxi, assistentes pessoais de Samuel, advogados de mulheres que citam acordos extrajudiciais, vizinhos de prédio e lojistas que contam que o empresário oferecia produtos para as adolescentes, afirmam que os abusos sexuais ocorriam. Os pagamentos em dinheiro ou eletrodomésticos eram feitos pela secretária do empresário de São Caetano e em outras filiais da Casas Bahia.
