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Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas: resistência, identidade e conquistas na Amazônia

*Geovana Vieira – Para a Redação Dia a Dia Notícia 

O Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, celebrado em 7 de fevereiro, foi instituído pela Lei nº 11.696, de 12 de junho de 2008, em homenagem ao líder guarani Sepé Tiaraju, morto em 7 de fevereiro de 1756, durante a Guerra Guaranítica. Para os povos originários, a data simboliza tanto as conquistas já alcançadas quanto os desafios que ainda persistem, especialmente nas áreas da educação, da política e da preservação das tradições. Educadores indígenas, pesquisadores e líderes políticos destacam a importância de manter vivas as línguas, a cultura e a autonomia de suas comunidades, reforçando a necessidade de políticas públicas mais efetivas e inclusivas.

A Guerra Guaranítica foi um dos levantes indígenas contra a colonização europeia na região do atual Rio Grande do Sul. Hoje, ela segue sendo um momento de reflexão sobre conquistas e desafios contemporâneos, como o acesso à direitos básicos, valorização das tradições, defesa dos territórios e a participação política dos povos originários.

Representação e luta no Amazonas

Entre os representantes que compartilham suas experiências está Irineu Baniwa, professor e ativista do povo Baniwa, do Alto Rio Negro, no noroeste da Amazônia. Para ele, o dia é um reconhecimento da resistência histórica dos povos indígenas, mas também evidencia a necessidade de que os direitos conquistados na Constituição Federal sejam respeitados.

Conquistamos dois artigos na Constituição, mas ainda precisamos que eles sejam cumpridos e que sejamos ouvidos pelos nossos representantes, para que nossas demandas sejam atendidas de acordo com nossas necessidades”, afirma Irineu.

Ele destaca os desafios na educação indígena e principalmente a falta de assistência qualificada e de recursos para registrar e publicar materiais didáticos, essenciais para que as futuras gerações conheçam e valorizem a cultura de seus povos.

Foto: Arquivo Pessoal

“Falta um recurso para que possamos publicar e registrar nossos trabalhos e materiais didáticos. Esses arquivos são importantes para que as futuras gerações possam consultar e entender como seus antepassados trabalhavam. Hoje, nossa cultura ainda é respeitada um pouco, por exemplo, em algumas situações já conseguimos dar aulas em nossas línguas.”

Além do papel de educador, ele atua como empreendedor, vendendo artesanato para sustentar a família. Segundo ele, a busca por necessidades básicas, como educação e saúde, fazem parte da luta por autonomia e desenvolvimento sustentável das comunidades.

“São desafios que ainda enfrentamos e não podemos parar. Tudo isso que fazemos é para nossa resistência. Além disso, precisamos garantir que nossos filhos continuem falando nossas línguas, mesmo morando próximos à cidade”, comentou.

“Por tudo isso, o Dia Nacional de Luta Indígena, para mim, é um reconhecimento importante e um sinal de avanço”, concluiu o professor.

Identidade indígena, contribuição acadêmica e inspiração

Outra experiência importante vem de Gildo Feitosa, do povo Makuxi de Roraima, biólogo, mestre em Botânica Tropical pelo Museu Paraense Emílio Goeldi e doutor pelo Programa de Pós-Graduação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), além de membro do Movimento dos Estudantes Indígenas do Amazonas (MEIAM). Ele lembra que a principal dificuldade em sua trajetória foi a falta de informação e referências em universidades e pós-graduações.

Gildo relata ainda os obstáculos financeiros e sociais, o preconceito e a pressão para manter médias altas para garantir a bolsa integral, além dos conflitos para compreender e inserir sua identidade étnica no meio acadêmico.

Eu sempre soube que era indígena, mas só me percebi realmente diferente quando fui fazer o mestrado em Belém, em 2011. Cheguei lá e, apesar de ser no Norte, eu era diferente, falava diferente, foi quando eu fui tentar entender mais sobre os povos indígenas e como era ser indígena, inclusive dentro desse contexto da academia” , conta.

Foto: Arquivo Pessoal

O pesquisador defendeu o doutorado em 2013, tornando-se um dos primeiros indígenas a concluir esse nível de formação no Museu Paraense Emílio Goeldi. Gildo também comentou sobre o uso de ferramentas digitais modernas, que ajudam a monitorar territórios, registrar ataques e fortalecer a comunicação entre comunidades, além de valorizar a tecnologia indígena tradicional, como produção de farinha, tucupi e domesticação de plantas frutíferas. Por fim, descreveu o que considera uma vitória pessoal de impacto por uma luta coletiva.

“Eu considero uma vitória ter sido o primeiro indígena a defender um doutorado no INPA, apesar de não ter usado políticas afirmativas de cota, fico muito feliz quando parentes me encontram e tem em mim uma referência pra continuar na pós-graduação e nas pesquisas dentro da academia”, destaca.

“Para fazer as outras pessoas se sensibilizarem, a gente precisa usar o conhecimento ancestral e acadêmico. Então é uma vitória está aqui hoje e poder ajudar não só o meu povo, mas o movimento como um todo”, concluiu o pesquisador.

O Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas, portanto, é um momento de reflexão sobre resistência, educação e preservação cultural, reforçando que os desafios ainda existem, mas que conquistas e exemplos como os de Irineu Baniwa e Gildo Feitosa demonstram que é possível unir tradição, conhecimento acadêmico e tecnologia em prol das comunidades indígenas.

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