*Da Redação Dia a Dia Notícia
Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025, foram registrados 483 casos de violência contra crianças indígenas de 0 a 14 anos no Amazonas, de acordo com dados dos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs). A maioria das notificações ocorreu em 2022, com 97 registros, e a faixa etária mais atingida foi a de 10 a 14 anos. Os meninos representam a maior parte das vítimas, e os tipos de violência mais frequentes foram física, psicológica e negligência, enquanto entre as meninas predomina a violência sexual.
Conforme informações da Secretaria da Saúde Indígena (Sesai) via Lei de Acesso à Informação (LAI), os meninos foram a maioria dos casos com 351 ocorrências, sendo a violência física a mais frequente (127 casos), seguida de violência psicológica/moral (99) e negligência/abandono (86). Entre as meninas, o tipo de violência mais comum foi sexual (64 casos), seguida de violência física (63) e psicológica/moral (44).
A distribuição dos casos de violência contra crianças indígenas no Amazonas revela maior concentração no DSEI Alto Rio Solimões, que registrou 192 ocorrências entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025. Em seguida aparecem Alto Rio Negro (48), Médio Rio Solimões e Afluentes (26), Parintins (24), Vale do Javari (17), Médio Rio Purus (15) e Manaus, com 11 casos em ambiente urbano. No total, 333 registros tiveram a localização identificada pelos Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEIs).
Os dados expõem a gravidade da situação em regiões de difícil acesso, onde a violência infantil muitas vezes permanece invisível por barreiras geográficas, culturais e estruturais. A maior parte dos casos envolve meninos, com prevalência de violência física, psicológica e negligência. Entre meninas, a violência sexual aparece com maior frequência.
Especialistas em saúde indígena destacam que as consequências ultrapassam o impacto físico imediato, afetando profundamente o bem-estar emocional, a convivência comunitária e a relação das crianças com a escola e com as práticas culturais. Em muitos casos, o sofrimento não é verbalizado e se manifesta por meio de mudanças de comportamento, como isolamento e agressividade.
As dificuldades de denúncia e acompanhamento são agravadas pela falta de acesso a serviços especializados e pela escassez de profissionais nas aldeias, o que contribui para a subnotificação. O silêncio imposto por medo, vergonha ou desconfiança nas instituições também impede que os casos recebam atenção adequada.
Para enfrentar o problema, a Sesai incluiu nos Planos Distritais de Saúde Indígena 2024–2027 ações voltadas à atenção psicossocial e à promoção do bem viver indígena. A meta é que até 2027 todos os DSEIs contem com uma Rede Intersetorial de Atenção Psicossocial. As medidas incluem a criação de núcleos de prevenção à violência, ampliação das redes de atenção nos territórios e integração entre instituições de saúde, educação e assistência social.
A Sesai reforça ainda o compromisso com a transparência e a implementação de políticas que garantam proteção às crianças indígenas, respeitando seus territórios, culturas e modos de vida.
