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A tão sonhada consciência negra

“(Espero)… que as pessoas finalmente percebam que só há uma raça, a raça humana, e que todos somos membros dela”

Margaret Atwood

O texto que proponho como reflexão para este dia carrega consigo algumas contribuições filosóficas para refletir sobre este mal humano que há séculos assola e destrói a vida e a existência de muitos seres humanos, o problema racial. Celebrado no dia 20 de novembro no Brasil, o Dia da Consciência Negra ou Dia de Zumbi dos Palmares é uma data que marca a resistência e a luta encabeçada pelos movimentos negros contra a opressão racial vivida em nosso país.

Os números e as estatísticas não mentem: a opressão e discriminação contra as pessoas pretas existe, é cruel, evidencia uma profunda desigualdade, é injusta e desumana. Para alguns pensadores trata-se de um problema social extremamente complexo, profundamente arraigado em nossa sociedade e cultura. Nas palavras do filósofo Sílvio Almeida (atual ministro dos Direitos Humanos) trata-se de um problema estrutural, no seu entendimento o chamado racismo estrutural.

As pessoas pretas em nosso país são indiscutivelmente a maioria, mas por que não são a maioria no poder? Por que não são a maioria nas faculdades? Por que não são a maioria na elite? Por que não são a maioria nos tribunais ou centros de decisões importantes? Estes questionamentos nos conduzem a uma outra realidade, de que a maioria das pessoas pobres é preta, de que a maioria dos encarcerados é preta.

Dados de 2019 aponta que “negros são 75% entre os mais pobres; brancos, 70% entre os mais ricos”. Entre aqueles mais pobres em nosso país, a maioria são negros; dos salários oferecidos, os mais baixos são para os negros; negros são a maioria entre os desocupados e os subutilizados.

Não quero transformar este artigo em um compilado de números que atestam a realidade, mas gostaria de ressaltar que esta realidade se trata de um desafio social, e este desafio pertence a cada um de nós. Pertence a cada brasileiro e brasileira que carregam em si o compromisso de transformar a nossa sociedade em um lugar mais igualitário e menos discriminatório.

Pensar as questões raciais exige de nós um olhar também histórico, já que a história política, econômica e cultural de nosso povo foi baseada em um sistema escravocrata e que suas consequências reverberam em nossos dias. De uma sociedade que dependeu da força do trabalho escravo para se fortalecer, mas que muito pouco concedeu aos mesmos em matéria de direitos. E vale ressaltar que, para aumentar ainda mais a nossa vergonha, o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. Daí podemos imaginar a dimensão do desafio que temos pela frente.

De acordo com a obra Dicionário da escravidão e da liberdade, olhando para a história do nosso país, podemos afirmar que “o período republicano foi propício para que os grupos negros pudessem se associar em suas principais reivindicações legais. Estas associações tinham como denominador comum uma preocupação com o progresso moral, intelectual, cultural e social do negro”. No entanto, “o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil em 1964 silenciou boa parte da discussão pública aceca do problema racial”.

O filósofo brasileiro Sílvio Almeida afirma que ⁠”o racismo não é um ato ou um conjunto de atos e tampouco se resume a um fenômeno restrito às práticas institucionais; é, sobretudo, um processo histórico e político em que as condições de subalternidade ou de privilégio de sujeitos ‘racializados’ é estruturalmente reproduzida.”

Em suas reflexões, Almeida assegura que mesmo sendo estruturais e profundamente estabelecidas, esta realidade não pode ser entendida como algo perpétuo, mas que pode e deve mudar. O filósofo francês Michel Foucault também levantou a bandeira das lutas raciais. Ele afirmava que as estruturas injustas de poder devem mudar, mas de que esta mudança exige participação. É exatamente esta participação que ainda deixa a desejar em nossa sociedade quando se trata da construção de uma consciência negra.

A filósofa brasileira Djamila Ribeiro vai mais além ao tratar do racismo na condição de mulher, quando afirma que “a representatividade é importante, porque não basta ser mulher e mulher negra, mas tem que estar comprometida com as questões, e eu estou. Comprometida com as pautas feministas, com a questão racial, com a agenda dos direitos humanos no Brasil”.

Este compromisso não pode ser apenas um compromisso das pessoas de cor. Jamais haverá igualdade entre brancos e pretos em nosso país enquanto apenas uma parte lutar por isso. Daí, acredito eu, a necessidade de uma consciência negra: em nossos lares, em nossas escolas, em nossas igrejas, na política, nas leis, na vida diária.

Por isso é importante conhecer a história, conhecer as estatísticas, os fatos, é importante não dar as costas para o problema. É importante reeducar nossas crianças para um sentimento de mais igualdade e menos discriminação. Reconhecer que a vida em dignidade, diretos e oportunidades não sejam privilégios de alguns, mas que sejam oferecidos para todos, independente de sua cor, de sua etnia, de sua religião e mesmo de sua ideologia de vida. Recentemente a lei número 10.639 tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas. Uma medida essencial no combate ao racismo e na construção de uma consciência negra.

O problema do racismo é um desafio também ético, carregado de um sentimento que determina a essência das pessoas apenas por sua cor. E dentro do conceito de ética é importante relembrar seu maior princípio e valor: de que devemos sempre fazer o bem. Como principal pensador dos fundamentos dos Direitos Humanos, o filósofo Kant afirmou que a pessoa possui dignidade, nunca é meio, sempre fim em si mesma, assim não pode ser valorada como coisa”. Ideia esta que vai de encontro à forma como o povo africano foi tratado e trazido para cá, como objeto, como coisa, como mercadoria.

Parto da ideia de que enquanto houver entre nós a discriminação e o preconceito racial, seremos sempre colônia, ainda subjulgada aos mandos do barão, do patrão, da senzala, do senhor engenho. Enquanto não se construir entre nós uma consciência negra, haverá uma brecha para que as desigualdades existam. Mudar é preciso, lutar é preciso, pensar e sonhar com uma sociedade igualitária é preciso, e para que isto seja realidade é necessário que toda a sociedade abrace a causa.

Tivemos sim uma história racista, preconceituosa, que explorou e escravizou as pessoas de cor. Mas esta realidade, a duras penas vem se tornando uma pauta importante nos debates sociais, nas escolas, na mídia, no Congresso, nas leis. E enquanto houver alguém que derrame uma lágrima por ter sido vítima de racismo, enquanto houver uma pessoa preta a ser chamada de bandida pela condição da cor de sua pele, enquanto houverem pessoas sofrendo as consequências da desigualdade étnica, haverá a urgente e necessária mudança de consciência bem como da mudança de atitudes, de valores e de práticas para com as mesmas.

Para você que chegou até aqui, vai meu apelo para que leia mais sobre o assunto, para que pesquise os dados, as estatísticas, para que conheça melhor nossa história bem como as leis que hoje defendem a causa racial no Brasil. Não podemos fazer de conta que o problema não existe, não podemos apenas afirmar que somos racistas, que somos uma sociedade preconceituosa. Não se trata apenas de uma questão de mudança de linguagem. Porém, somente ao nos darmos conta desta triste realidade e de que ela fere a dignidade de muitos, estaremos a caminho de uma nova consciência humana, a consciência negra!

Por Sérgio Bruno

É um livre pensador e professor formado em Ética e Filosofia Política, com mais de 15 anos de experiência na docência e formação de jovens e adultos. Atualmente também é professor em cursos pré-vestibulares na área de Ciências Humanas e suas tecnologias, atuando também como professor de Sociologia, Cultura Religiosa e Teologia. É apaixonado por temas como Cultura e Sociedade, Cidadania, Política, Direitos Humanos e Diálogo Inter-religioso. Adora livros, leitura e literatura e deseja convidar você para compartilhar pensamentos, ideias e reflexões diversas.

 

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