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“Meu Pai” – novo filme com Anthony Hopkins é candidato a 6 Oscars

Se a nossa história é escrita nas folhas da memória, o que acontece quando elas ficam desgastadas pelo tempo? O que afinal somos quando não conseguimos mais lembrar?

“Depois que a velhice chega, o que vem? A pergunta foi seguida de silêncio. Sem resposta, diante do acontecido e sentindo certa melancolia, entendi que o tempo nos ignora. Deixa marcas e acúmulo de passado. É esse acervo que nos define como velhos.” Velhos são os outros, de Andréa Pachá.

Imagina você pré-pandemia: é noite, você está na casa de amigos brincando com um um jogo de tabuleiro que envolve muitas peças e cores diferentes. Vocês estão bebendo. Rolam os dados. Você olha para um lado e para o outro e, de repente, de volta para o tabuleiro, e percebe que suas peças estão diferentes. Elas mudaram de cor e de quantidade. Você olha para o vinho, acha que se confundiu e refaz sua estratégia para o jogo.

Depois de mais um gole você olha novamente: as cores são outras e as peças mudaram de formato. Você acha estranho e questiona se isso é alguma espécie de brincadeira. Todo mundo nega, ri, e o jogo segue. Acontece de novo: cores, formato, quantidade, e quando você olha para quem está jogando com você percebe que não são mais seus amigos. Estão ao redor da mesa sua mãe, seu pai, seu irmão e sua tia. Olha para a janela e não é mais noite, é tarde. Você não está na casa de um amigo, mas sim, na sua. E o tabuleiro não envolve peças coloridas e dados. É um jogo da memória. Corta. Você acorda em sua cama no dia seguinte, ainda bêbado, e agradece que a noite confusa acabou.

Agora imagine se essa realidade confusa e trapaceira for a vida de alguém o tempo todo? Pense como seria se as peças do seu dia a dia mudassem a todo momento. Se você não tivesse certeza de que tomou café, de que a roupa que você está usando é pijama, se você duvidasse do que está enxergando. Imagine você refazendo a rota do jogo da memória 24 horas por dia. Como seria?

Divulgação

É nesse ambiente completamente desorientado que Florian Zeller coloca o espectador durante 1h30 em “Meu Pai”,  seu novo filme, que acaba de estrear no cinema e nos serviços de streaming (Youtube, AppleTV, Now e Google Play) e que recebeu seis indicações para o Oscar 2021: melhor filme, melhor ator, melhor atriz coadjuvante, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor design de produção.

Anthony Hopkins, absolutamente brilhante, empresta além do seu talento, o seu nome e sua data de nascimento para Anthony, um senhor de 81 anos que mora sozinho em seu apartamento em Londres e recusa todos os cuidadores que a filha Anne (Olivia Colman, também incrível), tenta arrumar para ele. Isso acaba virando uma questão ainda mais importante quando ela decide se mudar para Paris e não vai poder estar com o pai todos os dias. A partir daí coisas estranhas começam a acontecer. Anne parece se contradizer e pessoas esquisitas surgem no apartamento dizendo que moram ali. O que será que está realmente acontecendo?

O assunto da velhice tem aparecido de forma constante para mim nos últimos meses. Seja em relatos de amigos e familiares, nas lembranças dos últimos anos da minha avó que já se foi ou nas histórias que aparecem na editora, nos livros e nos filmes a que assisto. O mérito dessa história, em especial, é o de fazer com que o telespectador vivencie, ao menos por breves momentos, o que é ser idoso e o que é ter Alzheimer.

É essa a grande sacada do diretor. A interpretação comovente e a montagem do filme levam a gente pra dentro da cabeça de Hopkins. É tudo muito real: as pessoas não têm dúvidas de que ele está passando e sentindo tudo aquilo, mas, ao mesmo tempo, ficam sem saber o que é verdade ou mentira, possível alucinação ou não. A cenografia do apartamento fica distorcida pela visão do personagem. Paredes, revestimentos, quadros, móveis. Eles se movem e se modificam conforme a percepção do Anthony e de quem assiste. Entre paranoias e possíveis ideias de loucura a gente entende um pouco do que pode ser a confusão mental nesta idade.

“A memória é tão essencial para a vida quanto a mobilidade e o funcionamento cardíaco e vascular. O mundo dos velhos, de todos os velhos, de modo mais ou menos intenso, é o mundo da memória.” A frase é também do livro Velhos são os outros, da juíza Andréa Pachá, lançado pela Intrínseca em 2018, e que reúne histórias que abordam o fim da vida e os conflitos que surgem com a velhice. Foi inevitável  assistir ao filme e não me lembrar das histórias criadas pela Andréa. Em uma determinada cena emocionante, Anthony diz: “Sinto que estou perdendo todas as minhas folhas.” A alegoria era com árvores, mas eu sou uma pessoa que só penso em livros. Se a nossa história é escrita nas folhas da memória, o que acontece quando elas ficam desgastadas pelo tempo? O que afinal somos quando não conseguimos mais lembrar?

Triste, realista, dramático. É difícil assistir e não se identificar com quem está do lado de cá, no caso, a filha. No mesmo livro, Pachá traz em dos relatos durante uma audiência na Vara de Família: “Perder a memória dói mais para quem assiste ao triste mistério.” Como é difícil assistir à memória de quem você ama se apagar. Observar o esquecimento das relações. O desatar do laços. Fica uma sensação injusta, como se acreditássemos que a solidez e a verdade dos nossos sentimentos fossem anticorpos capazes de fazer com que a doença não se instalasse. O plano não dá certo. Há o fim. Há a doença. Há a morte.

Em entrevista à revista Veja, Florian Zeller diz que não queria que o filme fosse só uma história, e sim, uma experiência, com todo o estresse, a raiva, a ansiedade e a incerteza. Gostaria que o telespectador sentisse que joga um quebra-cabeça que não se encaixa, que sempre faltam peças. É impossível dizer que ele não consegue. Já Pachá, diz que o que sobra para a gente é o baú das memórias e dos afetos que conseguimos acumular ao longo da nossa história, para que, mesmo diante da fragilidade do corpo e especialmente do cérebro, a gente tenha escolhido o que acessar no fim da vida. Para mim, a arte como um todo terá espaço grande no meu baú de memórias. E este filme e este livro com certeza já estão lá.

Heloiza Daou é movida a palavra e um pouco obsessiva. É diretora de marketing na Intrínseca e também mãe do Tomás, o job mais insano e amado da vida.

 

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