Segundo dados do monitoramento hidrológico, o rio Purus apresentou elevação acelerada nas últimas semanas em diversos pontos de medição, superando em vários metros as cotas registradas no mesmo período do ano passado e surpreendendo técnicos e moradores da região. O nível do rio atingiu 15,21 metros. Em Lábrea, a situação é ainda mais crítica: as medições mais recentes apontam 20,63 metros, patamar próximo do transbordamento, embora ainda abaixo da cota máxima histórica.
A bacia do Purus banha diretamente ao menos seis municípios do Amazonas, como Canutama, Pauini, Boca do Acre, Tapauá, Lábrea e Beruri, onde o rio deságua no Solimões. Essas localidades integram a chamada Calha do Purus e são historicamente vulneráveis a variações bruscas do nível das águas, o que amplia os impactos sociais e econômicos em períodos de cheia.
Isolamento de Lábrea
A elevação do nível do rio já resultou na interdição da ponte sobre o rio Umari, na rodovia BR-230 (Transamazônica), único acesso terrestre ao município de Lábrea. Com a passagem bloqueada, o tráfego de veículos foi suspenso, isolando a cidade e comprometendo o abastecimento de alimentos, medicamentos e combustíveis. A situação agrava a rotina de uma população que depende da rodovia para o escoamento da produção local e a entrada de insumos básicos.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) informou que a liberação da ponte só ocorrerá após a redução do nível do rio e a realização de uma vistoria técnica no local. De acordo com relatos de moradores ribeirinhos, as águas do rio Umari ultrapassam o leito da ponte em cerca de 20 centímetros.
Além dos prejuízos logísticos, ribeirinhos relatam a antecipação de inundações em áreas mais baixas, bem como o aumento das dificuldades para o transporte fluvial, a pesca e as atividades agrícolas de subsistência.
Efeito no rio Solimões
O rio Purus é um dos principais afluentes do Solimões, que passa a se chamar rio Amazonas após o encontro com o Negro, em Manaus. A cheia antecipada ocorre em um momento em que o Solimões também registra níveis elevados em grande parte de sua calha, provocando alagamentos, isolamento de comunidades e dificuldades de locomoção e produção rural em municípios do Médio Amazonas.
Especialistas alertam que a elevação do Purus pode ter efeito acumulativo sobre o Solimões nas próximas semanas, aumentando a pressão sobre as margens de cidades situadas mais abaixo na bacia. O cenário tende a potencializar os impactos em áreas tradicionalmente vulneráveis a grandes cheias, como Anamã e Manaquiri, na Região Metropolitana de Manaus. A situação é agravada pelo fato de a cheia antecipada coincidir com o período mais intenso da estação chuvosa na Amazônia, elevando o risco de alagamentos prolongados caso as chuvas permaneçam acima da média.