Manaus, quinta-feira 12 de fevereiro de 2026
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Indígena vítima de estupro em delegacia no AM rompe o silêncio: ‘Trauma para sempre’

*Da Redação Dia a Dia Notícia 

Pela primeira vez, a indígena Kokama de 29 anos que denunciou ter sido estuprada por policiais militares e um guarda municipal dentro da delegacia de Santo Antônio do Içá, município a cerca de 880 quilômetros de Manaus, falou à imprensa. Cumprindo pena em liberdade, ela relatou os traumas físicos e psicológicos vividos durante os nove meses em que esteve presa e foi vítima de abusos. O caso, que veio à tona nas últimas semanas, levou à prisão de quatro agentes de segurança e à abertura de investigações internas. A entrevista foi concedida à Rede Amazônica.

O pesadelo da vítima começou em novembro de 2022, quando foi presa na delegacia de Santo Antônio do Içá. Sem uma cela feminina, ela foi colocada em um espaço com homens, juntamente com seu filho, que tinha apenas 21 dias de vida. A vítima conta que os abusos sexuais, praticados por policiais e o guarda municipal, iniciaram na primeira noite e se tornaram uma rotina de terror. “O medo me persegue diariamente. Vivo um trauma que sempre vou carregar”, desabafou a indígena.

“Eu tinha acabado de amamentar. Ele abriu a porta da cela, estava bêbado, se aproximou de mim e disse que eu estava sob sua guarda e que tinha que colaborar com ele. Ele me deitou ao seu lado, perto de onde meu filho estava. Os outros presos não disseram nada, pois tinham medo de serem espancados, como sempre acontecia na delegacia de Santo Antônio do Içá”, contou.

A situação se agravou nos fins de semana, quando a mulher era frequentemente violentada. Ela relatou que chegou a cogitar o suicídio, sem saber como escapar da violência e com medo do que os agressores poderiam fazer contra sua família. O único apoio que tinha era de sua mãe, mas a sensação de impotência era esmagadora. A vítima permaneceu com o filho na cela por dois meses, até que o bebê, após contrair uma gripe, foi levado para os cuidados da avó.

Segundo a mulher, durante uma visita à delegacia, um juiz foi informado sobre a situação da mulher, mas alegou que nada poderia fazer por ela, pois o processo era da comarca de Manaus. “Teve um juiz que fez uma visita lá. Ele estava fazendo tipo um mutirão com os presos das comarcas da região. Os presos disseram para mim, eu pedi permissão para falar com ele, e ele disse que não poderia fazer nada por mim. Que eu não era presa dele, da comarca dali. Eu era presa da Justiça de Manaus. Foram essas palavras. É revoltante tudo que aconteceu comigo naquele local. Eu ter ficado ali esquecida, exposta a tudo que passei durante nove meses”, relatou. A Corregedoria-Geral de Justiça do Amazonas informou que abriu um procedimento para apurar a conduta de magistrados e servidores.

A denúncia formal só foi feita em agosto de 2023, após a vítima ser transferida para a Unidade Prisional Feminina de Manaus. A repercussão do caso levou à prisão de três policiais e um guarda municipal no último sábado (26), e de um quarto policial no dia seguinte. Eles são investigados por estupro de vulnerável, estupro qualificado e tortura. A Polícia Militar abriu um inquérito policial militar, que está em fase final de investigação.

Veja quem são os suspeitos e onde foram presos:

  • Tabatinga: Soldado Nestor Martin Ruiz Reátegui e Luiz Castro Rodrigues Júnior;
  • Manaus: 1º Sargento Osiel Freitas da Silva;
  • Santo Antônio do Içá: Cabo Claudemberg Lofie­go Cacau e o Guarda Municipal Maurício Faba Nunes.

Em tratamento psicológico e psiquiátrico para lidar com síndrome do pânico e outros traumas, a mulher questiona a atuação dos policiais. “Sei que estava respondendo pelo crime, estou respondendo pelo crime que cometi, mas isso não dava direito para tudo que aconteceu comigo daquela forma. Eu estava sob a guarda deles, e o dever deles era cuidar e proteger. Eles fizeram exatamente o contrário”, afirmou.

Apesar das feridas, a mulher olha para o futuro com esperança. Em regime de semiliberdade e em um abrigo sigiloso, ela busca a liberdade para reencontrar a família, trabalhar e “ter uma vida estabilizada”. “Hoje me sinto muito satisfeita de estar livre daquele lugar. Nem tenho palavras para descrever a sensação que estou sentindo. Parece que nem acredito ainda que estou fora daquele presídio. Quero respirar e sentir essa liberdade, encontrar meus filhos, minha família. Por enquanto é isso”.

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